11.9.09

As histórias (e os desenhos) que as crianças inventam


Aproveitando o momento de Bienal do Livro aqui no Rio, a diretora da escola do meu fillho me perguntou se eu faria um trabalho com as crianças de lá. A atividade consistiria basicamente em ajudar os pequenos a criarem um livro ilustrado.

Perguntei se já havia um texto, e a resposta foi que, tanto o texto quanto a imagem, seriam criados por elas.

Quais as idades?, perguntei.

"O primeiro grupo possui crianças de dois a seis anos (meu fiho entre eles), e o segundo, com a faixa etária de sete a doze." e detalhou, "19 crianças no primeiro e umas 10 no segundo grupo".

Disse a diretora que a avó de uma das crianças é escritora de literatura infantil ( com livros já publicados e tudo o mais), e esta sugeriu que, em dupla, fizéssemos uma dinâmica de uma horinha com as crianças para elaborar juntos, o texto e a imagem.

"Hum, temos que separar as atividades" disse, "uma hora só não dá".

Disse à ela que, com o primeiro grupo eu preferiria que brincássemos de desenhar apenas. Depois transformaríamos os desenhos em páginas de um livro e poderíamos deixar o texto para vir depois, inspirado pelas imagens.
Com os mais crescidos, a escritora poderia sentar-se com eles antes e ajudá-los a bolar a história. Eu viria em um outro dia para trabalhar com elas as ilustrações sobre aquele material literário que elas queriam transformar em livro.

Enfim, fiz esta semana a "dinâmica criativa" com as criancas e tudo correu super bem. Com o primeiro grupo, os mais novinhos, nos divertimos à vera, sem regras, pura e livre expressão, já que toda criança é uma artista.

Com os mais crescidos (7 a 12 anos), antes de começar o trabalho pedi à orientadora pedagógica para dar uma olhada no texto que eles haviam criado junto com a escritora (falo disso depois, preparem-se).

Comecei com eles nossa atividade com a seguinte pergunta:

"Quem aqui gosta de desenhaaaar?"

Todos levantaram a mão.

Então perguntei para um menino de 7 anos: "Você aí, garotão, gosta de desenhar o quê, dinossauros, carros, super heróis?"

"O DEMÔÔÔNIO!", respondeu ele engrossando a voz.

Arram...OK. Ehn, e vocês meninas?

Corta.

Finalmente, meus caros 6 leitores, compartilho com vocês a sinopse da história criada pelas crianças de 7 a 12 anos:

"Ladrões assaltam um banco e, na saída, dão tiros para todo lado, ferindo civis etc. Mas antes que pudessem fugir com o dinheiro são presos pelo BOPE.

Na cadeia um deles aproveita um descuido dos policiais na hora do almoço e rouba um uniforme. Disfarçado rouba a chave da cela e solta os amigos presos.

Um policial chamado Rogério descobre a manobra a tempo e pede reforços. Os assaltantes são novamente presos, exceto aquele indivíduo que havia se disfarçado. Ele planeja uma vingança contra Rogério, o policial dedo-duro.

Chegando em casa o policial recebe uma mensagem pelo celular dizendo: "estou com sua filha. Solte meus companheiros se quiser tê-la de volta". Rogério sobe as escadas assustado em direção ao quarto da sua filha de apenas 8 anos, Maria, e descobre que ela não está lá.

Ele se desespera e liga para seus companheiros da polícia.

O BOPE aparece com seus cães farejadores e, com eles vasculham toda a cidade, passando pelo bairro do Ingá, Icaraí, São Francisco e Jurujuba (todos bairros de Niterói), até a fortaleza de Santa Cruz...

Adentrando a mata os cães descobrem uma casa "sinistra" e dentro dela encontram e prendem aquele ladrão que havia anteriormente se disfarçado de policial. Mas, para surpresa geral, a crianca não está ali. O pai se desespera.

Então os cães começam a latir para um velho armário. Policiais o quebram e lá dentro encontram assustada e amordaçada, Maria, a filhinha do policial Rogério. Ela é solta e levada para junto do seu pai e da sua mãe, que, chorando de alegria a abraçam e beijam.

Um bom tempo se passou até que a família superasse aquele trauma, e aqueles eventos tristes nunca mais aconteceram e assim eles foram felizes para sempre."

Fim (claro!)

Como se pode notar, temos aqui um folhetim policial 100% mundo cão, só faltando o super herói Capitão Nascimento.

Onde foi parar a fantasia, a inocência, oh meu São Gianni Roddari?

Em tempo: recebi um simpático e-mail da Fernanda lemos, com um link para o video abaixo. O projeto "É proibido NÃO tocar", fica em Milão e traz uma série de jogos, brinquedos e engenhocas inspirados na obra de Bruno Munari para crianças. Ideias tão simples e eficazes para resgatar a fantasia, a curiosidade, a inventividade.




10 comentários:

Cintia de Sá disse...

Que lástima...
Tenho amigos que já trabalharam com arte-educação em favelas e eles contam sobre a violências explícita nos desenhos e histórias. Triste e compreensível pelo nível de exposição deles.
Mas na escola do seu filho, esperava mais sóis, flores e árvores... onde anda a infância?

Quando eu era criança, costumava desenhar casa, sol, árvores, patos, gatos, meus parentes e coisas assim, do cotidiano.

Parece que o cotidiano das crianças mudou para o medo e a raiva generalizada em que vivemos.

Isso me faz lembrar dos contos populares que foram adaptados à infância, amenizando-se a crueldade. A Cinderela, por exemplo, não terminava no casamento, ela voltava para se vingar e matar a madrasta. Agora parece que as próprias crianças estão dizendo: parem de falar de príncipes e princesas, queremos ouvir sobre a bruxa e sua agressividade.

Alex Cói - acr.alex@gmail.com disse...

Com certeza o nosso camaradinha Rodarri se assustaria se tivesse participado dessa atividade com as crianças...

Tita disse...

ME-O DE-OS!

Acho que isso tem bastante haver com o trabalho do Helnwein ne... http://www.helnwein.com/

A "REALIDADE" ESTA MATANDO A "FANTASIA" DA INOCENCIA!

Diario da Fafi disse...

Como contadora de história e escritora, me senti passada a ferro com essa história.
A questão da fantasia,tão cara às nossas crianças está sendo infelizmente, soterrada pela realidade, e o que é mais triste: com o aval da familia.
Acho que você deveria voltar à escola e propor à diretora, um choque de fantasia.
Essas crianças merecem!!!

Ah! aproveita e convida os pais,talvez eles entendam que realidade demais faz mal à saúde.

Cintia de Sá disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Cintia de Sá disse...

A fantasia não está morrendo, está mudando de tema, no caso, a violência urbana é a nova temática. O que poderia se dizer é que estão perdendo a ingenuidade... que também é questionável, a história deles é bem ingênua.

Talvez, o que a história deles nos traz é que vivemos numa sociedade repleta de informação e as crianças estão equipadas, muito bem equipadas de violência. Talvez possamos pensar na qualidade da informação que envolve essas crianças e que está presente no dia-a-dia dos adultos...

Adriana Bocaiuva disse...

Affe, ao menos essas criancas ainda acreditam na diferenca entre policia e ladrao... A realidade MESMO ainda reserva mais emocoes...

Leonardo Louzada disse...

será que as crianças ainda jogam bola de gude, ping-pong e essas coisas tb? acho q agora cada vez mais elas são mini-adultos...

Marcos disse...

Cara, quando meu sobrinho estava na quarta série a turma dele escreveu um livro coletivo. Foi uma releitura de Cinderela. Vou copiar um trecho:

"A mãe, que acabara virando uma verdadeira megera, vivia da praia para o salão de beleza e do salão de beleza para a praia. (...) Ela comia em restaurantes chiques, à luz de velas, com um amante que havia arrumado (...)

A megera conheceu o amante na praia. Ele era salva-vidas e salvou-a uma vez de um quase afogamento. Fez respiração boca-a-boca e ela acbou beijando-o de verdade. A partir daí, passaram a se encontrar sempre em restaurantes chiques. Mas era ela que sempre pagava a conta."

Guilherme Howat disse...

Concordo com a Cintia, a fantasia e a inocência continuam lá o que mudou foi a temática. Nossos avós liam João e Maria, onde duas crianças são abandonadas na floresta pelos pais tão pobres que não podiam alimentá-los. A criança não percebe isso, continuam mantendo a informação no nível inocente e encantador, o foco da atenção fica direcionado à casa de doces, a bruxa feia e tudo mais. Nunca ao canibalismo e ao abandono infantil, isso fica por conta do adulto.

Eu quando estava exatamente nessa mesma faixa etária escrevi uma historinha em quadrinho, que tenho até hoje guardada, sobre uma guerra, daquelas bem hardcore com soldado tomando bala no peito e bombardeio, lembro bem que essas questões de morte, e genocídio nem passavam perto.

Adulto tem que tentar olhar as coisas pelo prisma da criança mudam os cenários mudam os temas mas a inocência e a fantasia continuam. A beleza da visão/percepção da criança está nisso, conseguir olhar de forma inocente até ações extremamente negativas do cenário onde estas se encontram.