9.6.08

De volta do N-Design - Manaus



Acabo de retornar do NDesign 2008- WatyAmá, o grande encontro nacional de estudantes de Design, onde estive como palestrante convidado para falar sobre criatividade.

Este décimo oitavo encontro reuniu em Manaus mais de 1500 estudantes de toda parte do Brasil para debater os rumos da profissão, aprender, atualizar-se, confraternizar, celebrar e conhecer uma das regiões mais lindas do país.



A organização do evento foi excelente e fez a festa da maioridade do N-Design com bastante dedicação, profissionalismo e atenção aos detalhes.

O título WatyAmá faz referência ao rito de passagem da Tucandeira, quando jovens da tribo dos Saterê-Mauê têm suas mãos enfiadas em uma cesta cheia de saúvas. Este é não somente um gesto de coragem mas também de amadurecimento do indivíduo para enfrentar os desafios da vida adulta. O estudioso dos mitos, Joseph Campbell, certamente adoraria ver isso.

Pude conhecer muitas pessoas especiais nesta viagem, e, dentre os estudantes, destaco as meninas da organização do NDesign: Anny, Bia e Lara. Segundo elas mesmas me contaram, para realizar o evento tiveram que literalmente sacrificar os estudos e a universidade por quase um ano. Tenho comigo a certeza de que, o que elas aprenderam aqui em administração, logística, captação de patrocínio, trabalho em equipe, foco, estratégia, descascamento de pepinos e abacaxis e principalmente coragem, nenhuma universidade de design poderia ensinar.

Organizar o NDesign 2008- WatyAmá foi uma experiência que estes jovens vão carregar consigo pela vida inteira, como belas cicatrizes de formigas tucandeiras.



Além de promover uma infinidade de palestras, oficinas e mesas de debate, o encontro em Manaus serviu para os estudantes ampliarem seus círculos de amizades, curtir muitas festas, tomar umas e outras e celebrar este momento tão lindo, especial e exaustivamente cantado em verso e prosa: os "vinte e poucos anos"...

Em um emocionante documentário que assisti, um estudante baiano dizia que os NDesign "não deveriam servir de pretexto para se encontrar os amigos, para buscar sexo, bebidas, drogas e festinhas, mas principalmente para se discutir os rumos da profissão". Certíssimo até certo ponto, mas sigamos o exemplo de Buda: vale mais o caminho do meio. Se o N quiser encontrar um ponto de equilíbrio entre sua programação séria e de conteúdo relevante, adicionando à ela a natural aptidão das cidades-sede para o turismo e a confraternização das pessoas, o evento vai chegar ao seu melhor aproveitamento. Para um resultado melhor ainda, vale minha dica: se existe uma programação de oficinas e palestras pela manhã, as festas do dia anterior devem ter hora pra começar e hora pra acabar. E claro, o alojamento deve ter toque de silêncio a partir de uma hora razoável...



(isso porque é chato ver estudantes batendo cabeças e roncando durante as palestras...)



Tirei uma manhã para conhecer o porto de Manaus, que é um espetáculo à parte. De qualquer ângulo, o que se vê são personagens curiosíssimos, situações e flagrantes dignos de registro, seja pela câmera, seja pela ponta do lápis.



Passei uma manhã desenhando e aquarelando por lá, e pude constatar de perto a simpatia dos amazonenses. Para chegar "bem-chegado" desenhei logo o retrato de alguns e assim que o bolinho estava formado ao meu redor, fiquei à vontade para desfilar meu sotaque ridiculamente carioca e fazer uns desenhinhos e umas aquarelas.



Por causa dessa aquarela aí fiquei com a careca e os braços completamente vermelhos de insolação.



Teve até esse simpático sujeito aí em cima que, por livre e espontânea vontade, se dispôs a ficar do meu lado segurando um guarda-sol. Conversamos bastante e ele me contou diversos causos sobre os naufrágios no Rio Madeira, de águas velozes e traiçoeiras, e com corredeiras onde perigosos troncos estão a flutuar sem rumo. Ele me falou até de um acidente lendário que ficou conhecido como o "titanic do amazonas". Aquela infeliz embarcação tragou consigo mais de 50 vidas ao afundar.

O meu segurador de guarda-sol explicou que aqueles barcos geralmente viajam com seus porões sobrecarregados de mantimentos, sacos de farinha, carne, bebidas, eletrodomésticos e tudo o mais que as cidades ribeirinhas precisam. Por possuirem vários andares, que amontoam até 200 redes de dormir, o equilíbrio é precário. "O barco bate de noite num tronco, banco de areia, e daí roda cambaleando pra lá e pra cá" disse ele, "daí o povo acorda desesperado corre prum lado e pro outro tentando aprumar mas não tem jeito... vira mesmo e todo mundo some no redemoinho pra nunca mais".





Olhando os carregadores indo e vindo com toda sorte de coisas, e a infindável quantidade de pessoas penduradas em redes ao redor de toda a embarcação, pude ter uma idéia do inferno que deve ser uma viagem destas... Preciso muito voltar aqui e curtir essa experiência (3 dias e 3 noites até Santarém no Pará seria um bom percurso...) ! Tá anotado!



Os carregadores do porto são verdadeiros homens-mula. Vi um deles carregando dois sacos de mandioca com mais de 70 quilos cada.



Quem diria, Wolverine foi parar nos braços de um caboclo amazonense!



A galeria de personagens de Manaus é infindável.



Adiei meu retorno ao Rio para participar de um passeio de barco pelo Rio Negro até o encontro com as águas do Solimões. Por terem densidades e composições químicas diferentes, as águas destes rios não se misturam. É chá e café com leite, um de cada lado.



Nosso barco estava lotado de estudantes que vieram para o "N". Com uma hora de viagem atracamos em uma árvore em um afluente do rio para fazer uma pausa para o almoço.



Logo em seguida surgiram umas crianças remando suas frágeis canoas em nossa direção. Saíram de suas palafitas ao longe e nos trouxeram seus bichos de estimação (cobras, preguiças, jacarés e macacos) para tirarmos fotografias com eles. Fiquei curioso com os nomes das crianças: Arnold, Mick e Jonathan. Que poder tem a TV !



Olha o passarinho! Eu podia jurar que havia sorrido para esta foto...

Logo depois trocamos para barcos menores e partimos para conhecer os igapós e igarapés, que são as porções inundadas da floresta. Vimos também as vitórias régias, belos pássaros, árvores centenárias, botos, Yaras, Uirapuru, Curupira, Tupã e um pouco da riqueza da floresta.



Uma parte do igapó estava repleta de vitórias-régias.



Havia também uma pequena feira de artesanato local que vendia uns badulaques indígenas com sotaque pra turista. Fotografei uns peixes secos esquisitos que estavam sob uma lona azul. Coisa pra gringo ver.



Meu último passeio foi à pé ali pelo centro de Manaus, onde tomei uns deliciosos sucos locais e ouvi taxistas conversarem horrores sobre o governo "que não faz nada contra esse sueco e esse montão de gringo aí ó, tudo comprando a Amazônia...". Torço para que o ministro Minc (em quem já votei aqui no Rio) não se deixe infectar pela escrotidão paralisante que corre nas veias do poder federal.

Caminhei até o Teatro Amazonas, sob um lindo sol de fim de tarde. Pena que a visitação fechava às 5. A praça ali no entorno do teatro é talvez um dos lugares mais bonitos do centro de Manaus e vale a visita.



E para terminar o dia com chave de ouro, assinei uma petição do Greenpeace pela preservação da floresta amazônica. Passe lá você também para conhecer melhor o assunto, ver o vídeo e assinar.



Ficou decidido que o próximo NDesign será em Pernambuco. Boa sorte aos organizadores e que façam um evento tão bom quanto este de Manaus. Se quiserem minha presença novamente sentirei-me honrado.

7 comentários:

popdesign disse...

alarcão que invejinha de vc, pois fui para o n tb (estava indo embora qdo vc tava chegando) e não pude aproveitar tudo a contento dada a correria que estava (minha oficina atrasou e nao pude fazer o city tour que queria), mas um dia eu volto e aproveito tudo que tenho direito!!!

damiaosantana disse...

NDesigns são uma delícia mesmo! Há tempos que não degusto um, ÔÔ!! Mas este teu relato deu um bom gostinho do N e me aguçou a fome de visitar este outro país que temos perdidos na Amazônica. Parabéns pelos desenhos, gravuras, retratos, fotografias... Vc é um caba da peste! Que os N-neiros daqui te tragam no ano que vem! ;)

Felipe V. Gomes disse...

Bela foto essa com as vitórias-régias ao fundo! Esse fotógrafo é muito bom!

Luis Saguar disse...

Muito Very Good!!!!
Bacana o relato do N, Alarca!
Ah, e parabéns pela seleção da ilustração no AI!

abração!

Saguar

Bruna disse...

Alarcão,

Adorei seu relato, foi muito bom mesmo o N. Adoro também o seu jeito peculiar de observação e pela simplicidade que você transborda. Muito com te conhecer.

Beijos,

Bruna e Marcos (lá vai eu falando por ele de novo, né? :P )

Carlão Pacheco disse...

Cara, muito legal esse teu passeio. Eu nao estive no N, mas há muitos anos passei uma longa temporada em Manaus e fiz todo esses percursos aí. Muito show. Ah, e seu trabalho, cara, muito bom mesmo. Sucesso sempre e cada vez mais. Talento pracarai. Abração.

Bruno Porto disse...

N Design é bão, fio... E que desenhos lindos, cara! Abração chinoca!