14.11.08

Traçando Histórias em Porto Alegre

Vai até o dia 16 de Novembro a mostra de Ilustrações de Literatura Infanto-Juvenil "Traçando Histórias", que faz parte da programação da 54ª Feira do Livro de Porto Alegre.



Eu participo com as ilustrações das capas dos livros O Velhinho que virou Criança e História Meio ao Contrário.


9.11.08

Mestres

"Um mestre não é um professor. Professores nos levam a repetir e adotar suas idéias. Mestres, ao contrário, nos incitam a renegá-las, para formar assim nossa posição" , Disse José Castello, colunista do caderno Prosa e Verso, do jornal o Globo.

Esta é uma definição que ressoa internamente com minhas convicções. Lendo-a percebo que, intuitivamente, tenho buscado também me conduzir desta maneira junto aos meus alunos.

Um outro conceito que me inspira profundamente encontrei em uma citação de Platão, que dizia-se um obstetra mental, por ajudar aos outros a dar luz às suas próprias idéias.

São duas frases que complementam-se mutuamente sem deixar brecha para muita coisa a mais. Talvez tenha faltado apenas dizer que educar, ensinar, compartilhar o conhecimento, é sobretudo um gesto de generosidade.

Até hoje tive 4 mestres: Rui de Oliveira, Bandeira de Mello, Kazuo Iha e Marshall Arisman.

Tive sorte!

4.11.08

www.renatoalarcao.com.br/blog

Agora sim, um endereço decente para blogar!

Entrevista online

Você pode ler uma entrevista minha no site carreira solo.

O convite partiu do Dudu Rocha, articulista do site e também designer da Crama, escritório legal do Rio.

Aproveite para passear por lá pelo site que tem muita dica boa.

3.11.08

Cortador de fumaça

O crescimento carbono-intensivo vem elevando as concentrações de gases estufa até o ponto em que desastres climáticos de grandes proporções começam a se tornar mais habituais.

Para administrar o clima e nossas economias, é necessário que as emissões de gases causadores do efeito estufa reduzam em até 50% lá pelo limiar do ano 2050.



A meta de 50% de redução exige que a maior parte da produção de eletricidade seja descarbonizada, e as emissões de gases dos transportes, do uso da terra, de edifícios e da indústria reduzam fortemente. Globalmente falando, a média atual de sete toneladas de CO2 per capita precisam cair para cerca de duas toneladas.

A maioria dos grandes países emergentes do mundo, incluindo o Brasil, já emite significativamente mais que o nível de duas toneladas per capita.

As mudanças climáticas são um problema global de escala sem precedentes. O mundo tem apenas alguns poucos anos nos quais agir para evitar grandes riscos de danos graves ao planeta. É necessário que sejam realizadas ações eficientes agora, pois essa oportunidade não voltará.

Se todos os países trabalharem juntos para criar uma resposta global efetiva a este desafio, ainda há tempo para evitar os riscos ambientais que já despontam no nosso futuro.


(mas, convenhamos, pensar em termos de 1% de redução ao ano é uma estratégia um tanto lenta demais para o atual ritmo do aquecimento global)

22.10.08

AlarScan 2

Xaman

Item necessário: amuleto para espantar urucubaca, zôio grande, língua espinhenta e demais sentimentos que borbulham fedidamente nos poços fundos da inveja. Êpa hei bizinfio!

Ciência desvenda mecanismos do orgasmo feminino

O texto -obviamente ficcional - foi do Moacyr Scliar. Devido ao meu quase completo desconhecimento do assunto, salvei-me ao reunir uma compilação de antigos experimentos gráficos do meu sketchbook, somados a uma leve pitada de digital. Saiu na Folha de São Paulo.

21.10.08

Vamos falar da cultura judaica


Quem está em São Paulo pode conferir um papo com os autores destes dois livros que ilustrei, o ABC Judaico e O Golem do Bom Retiro. Queria poder estar lá!

19.10.08

Rabisqueira no busão

Desenho antigo finalizado no fotoxópis.

Capeta cantando o Blues

Quem canta seus males espanta. Larari Larará...

Retrato a óleo


Um punk de Nova York veio posar um dia...

E porque estamos em época de eleição...

Este foi um dos melhores textos do Scliar que eu ilustrei.

17.10.08

Lápis com pigmentos feitos a partir de partículas luminosas

Quando o lápis é bom a gente usa até o fim (mesmo!).




Certa vez um colega ilustrador me falou dos lápis Prismacolor.

"Alarca, são maravilhosos! Em lugar de pigmento eles possuem partículas de luz!"

Exageros à parte, fui conferir e descobri que, de fato, são os melhores lápis de cor que já tive em mãos. Depois deles até os meus CaranD'ache andam meio abandonadinhos.

O estojo Prismacolor de 72 cores está cheio de toquinhos. Preciso refazer o meu estoque, mas estas coisas não podem ser encomendadas aos amigos. Sempre vão comprar errado.

Hora de tirar o visto para visitar a Pearl Paint...

10.10.08

Bala perdida

EM DEMANDA: Diretores de arte que saibam trabalhar com o ilustrador

James McMullan disse aqui em duas imagens o que seria necessário ser dito com um artigo inteiro. Bem, se você quiser ler o artigo, eu o escrevi e se chama "O Cérebro do Ilustrador". Está na seção de textos do site www.renatoalarcao.com.br

Nova série: AlarScans


Tenho um monte de coisas guardadas aqui em caixas. Selos, impressos, cartas velhas, coisas que o mar traz, folhas, pequenos objetos e postais.

Quando os coloco juntos vejo que formam pequenas assemblages, colagens-sem-cola. Sobrepostos no scanner, cubro-os, clico a tecla e pronto, tá registrado. São os meus "haicais visuais".

Batizei isso de "AlarScans"... huehe, que nomezinho bobo.

Em visita ao museu...



Rabisqueiras em reverência ao tio Velazquez.

encruzilhada

Mais um artista favorito

Acho incrível pensar que não tenho um livro sequer sobre George Grosz...

Saiu mais uma capa do Sharpe



É o oitavo livro da série de Bernard Cornwell sobre o soldado inglês Richard Sharpe. Muito bem escrito.
O design das capas é do Marcelo Martinez.

A morosa justiça brasileira...


Esta aí saiu na Folha de São Paulo este ano.

Uma procissão de juízes ao som do Bolero de Ravel.

Visita de um prêmio Nobel

Estava fazendo meus backups outro dia desses e encontrei um monte de coisa que já havia quase esquecido.

Como esta, do tempo em que pintava murais em New Jersey. Um belo dia recebemos a visita de Rigoberta Menchu, a índia da Guatemala que havia ganho o Nobel da paz anos antes. Ela havia vindo a Nova York para uma conferência da ONU, e quando soube que o rosto dela figurava em um mural numa cidadezinha em New Jersey, tratou de pegar um táxi para ir lá agradecer.



Alguem aí sabe quem está concorrendo ao prêmio Nobel da paz deste ano?

22.9.08

Arvore da Fortuna



É isso aí, aproveitem os frutos em abundância.

19.9.08

Desenhos em Recife


Quem quiser conferir imagens das minhas oficinas de desenho que rolaram em Recife, pode dar uma olhadinha no Flickr do Centro de Design do Recife.

As fotos aqui são do Breno Cesar. Vale a pena conferir o trabalho pessoal dele. Segundo me contou, ele busca criar abstrações fotográficas a partir do macro, da super ampliação do detalhe.

A Juventude é de Direita


Segundo uma recente pesquisa, o jovem brasileiro é de direita.

Acho que concordo. O que já ouvi de barbaridade...

Embora não seja tão jovem assim mais, tem horas em que eu acho que "bandido irremediável" deveria mesmo é virar proteína para o sopão das penitenciárias de segurança máxima. Isso é ser de direita?

E vibrar com o capitão Nascimento seria o mesmo que comungar do credo fascista?

Já votei no Lula 4 vezes. Na primeira eleição direta do Brasil - a que elegeu o Collor - meu voto no primeiro turno foi para o comunista Roberto  Freire. Eu tinha 18 anos. No segundo turno votei naquele sindicalista que o Brizola alcunhou de sapo barbudo ("porque as elites teriam que engoli-lo"). Nas eleições de 2010, aos 40 anos de idade, votei em dois deputados petistas.

Olhando no espelho, o cara do outro lado me diz que, politicamente, eu sou do ENDIREITA.

Ainda busco um político que se comprometa a focar seriamente no assunto educação e desenvolvimento sustentável. Mas tem que ser uma pessoa que olhe no olho, que passe um "vibe" do bem, que não tenha esqueletos guardados no armário. Se tiver uma posição corajosa* em relação a temas como aborto, religião e drogas, melhor ainda.

*Religião: o estado é laico. A Universal é uma quadrilha.
*Aborto e drogas: assunto de saúde pública. E quem quiser fumar que plante o seu.

Só não aguento mais tanta hipocrisia.

Enquanto esse político exemplar não aparece, prossigo fazendo minhas escolhas por eliminação dos piores. O que sobrar - e não sobra muito não - ganha meu voto.

A ilustração que embeleza este post tem por título "Caldinho de Fernandinho Beira Mar" (mas poderia ser Elias Maluco). Sou o tipo de pessoa que não tem pena desses caras. Se fossem uma barata eu pisaria neles até descalço. E me comprazeria em ouvir o barulhinho "plect".

15.9.08

Ensaio sobre a cegueira

Quando morei fora do Brasil tive uma amiga querida como meu porto seguro, literalmente.

Eu era um jovem semi-caipira, nascido e criado na baixada fluminense (RJ) e que, num relance, viu-se aterrissando em Nova York para viver naquela metrópole por 4 anos.

Nicole e sua família me hospedaram por 45 dias até que conseguisse um lugar para morar. Sentia-me de fato como um autêntico membro dos Mandarano, paparicado e amado como tal. Aqueles ítalo-americanos são os meus maiores fãs, talvez mais até do que a minha própria família.

Conheci Nicole quando ela esteve no Brasil em um programa de intercâmbio do Rotary. Conversávamos então até altas madrugadas, e tornamo-nos amigos assim num estalo, coisa de destino mesmo.

Minha amiga é muito culta: viveu em Paris por 3 anos, morou em São Francisco, é super politizada (tem um blog bastante ativo nestas questões), formou-se em direito e trabalha como ativista social (graças a ela pude trabalhar em uma ONG em New Jersey, desenvolvendo murais com grupos de adolescentes infratores), vai regularmente a museus, gosta de filmes-cabeça, lê biografias de artistas contemporâneos como Joseph Cornell e é particularmente apaixonada pela obra de Balthus (pintor francês cujo centenário é celebrado este ano). Sobre Balthus, diria que sua paixão possui contornos quase obssessivos. Tanto que um dia ela convenceu um guarda do Metropolitan museum a levá-la para ver os quadros de Balthus cuidadosamente guardados na reserva técnica no subsolo do museu. Segundo me contou depois, chegou a ter tremeliques de êxtase ao se aproximar dos Balthus.

Nicole nasceu sem a visão no olho esquerdo, mas isso nunca foi problema. Até dois dias atrás.

"...descobri ontem que tenho degeneração macular no meu olho direito, o que leva à perda da visão.", disse ela num e-mail. "Ontem fui submetida à uma cirurgia de emergência para "tapar" um buraco na minha retina, mas o problema é gradual. Como você deve se lembrar, eu não tenho a visão no meu olho esquerdo. Estou me mantendo positiva, mas ainda bastante preocupada em relação ao futuro..."

Nicole faz aniversário este mês. Vou enviar para ela umas gravuras.

10.9.08

No Recife: duas oficinas em uma


Novamente estou a caminho da bela cidade do Recife, para realizar duas oficinas de desenho com conteúdos complementares. E novamente tenho a alegria de contar com 100% de vagas ocupadas.

O Desenho Dinâmico serve de base para um trabalho que prima pela síntese e, consequentemente, rapidez de execução.
Este primeiro trabalho é feito em estúdio ou atelier, e foca também na observação das relações de figura e fundo, que são elementos fundamentais da composição visual.

O Desenho de Locação é o desdobramento do trabalho anterior, quando parte-se de encontro aos temas da cidade, suas ruas, sua arquitetura, sua gente, os mercados, a geografia e natureza que lhe é peculiar.

Desenhar é o ponto de partida para todos os tipos de transformação e interpretação das idéias. É uma forma muito especial de apreender a realidade, e também um exercício da percepção e da memória.

O desenho pode ser compreendido como o meio ideal de mostrar o processo criativo de um trabalho de arte em toda a sua espontaneidade, revelando vários estágios de concepção.

Misterioso e primordial como a própria linguagem, o desenho acompanha o homem desde o momento em que a primeira centelha criativa se acendeu em seu cérebro primata. Até mesmo hoje, pode-se perceber que quase tudo o que nos rodeia, carros, prédios, roupas, objetos ou cidades, um dia começou com um desenho.

Este curso é voltado para estudantes e profissionais cuja atividade demanda o conhecimento do desenho como ferramenta para elaboração de idéias, e a sua transposição para o universo físico.

Estou feliz em poder retornar ao Recife, terra boa onde cada pessoa é um carro alegórico, multifacetados em sua inventividade, entrega artística e criatividade. Todo mundo que conheci lá desenha, faz quadrinhos, cria design, gravuras, brinca de marionetes, toca flauta, faz teatro, dança forró e escreve poesia.

5.9.08

Arte filatélica



Algumas jóias da arte filatélica da República Tcheca país onde tudo o que é gráfico tem algo de maravilhoso.

Aliás o leste europeu em geral é um manancial inesgotável de belezuras assim. Que o digam os cartazes poloneses.

Estes belos selinhos me foram presenteados pelo Fábio Lopez, tipógrafo e filófilo (acho que inventei essa palavra misturando os prefixos e sufixos selo=filo e apaixonado=filo) . Conheçam seu blog Design e Filatelia, onde ele desfila sua inteligência e bom gosto. Vejam abaixo alguns selinhos cubanos de sua coleção. Segundo ele, o achado "encheu seu domingo de alegria".

4.9.08

Collage


50% analógica, 50% digital. Detalhe micro do original que tem 6 vezes este tamanho.

26.8.08

Cão em estilo firulativista



Já ouviram falar no estilo Neo-firulativo?

Sim, o firulativismo é a grande novidade desses tempos.

24.8.08

Alex Atala: mais uma ilustração para a Nextel


Nova ilustração para a campanha da Nextel para veiculação dirigida a revistas moderninhas de design e ilustração.

Este já é o segundo da série (o primeiro foi o cineasta Fernando Meirelles, e já estou trabalhando em um terceiro.

Apesar de ter que mudar de estilo a cada trabalho, estou curtindo muito fazer este projeto para a Loducca.

Agora entendo porque os ilustradores que trabalham com publicidade são chamados de "os camaleões das artes gráficas"...

Consumir !



Segundo o Painel Nacional de Televisão do Ibope, as crianças brasileiras de quatro a 11 anos, assistem em média 4 horas, 51 minutos e 19 segundos, o que coloca o Brasil em primeiro lugar mundial antes dos Estados Unidos, a nação mais consumista do mundo.

Veja na Folha de São Paulo página 3, dia 25/08, este importante artigo de Milu Villela sobre a regulamentação da publicidade voltada para crianças e jovens.

"...O adolescente que assalta para ter o tênis de marca que viu na televisão, o menino obeso que pressiona a mãe no supermercado para experimentar as últimas novidades com gordura trans e a menina sexualmente precoce que até consegue ir à escola sem comer, mas não sem a maquiagem no rosto, são, na verdade, presas fáceis de uma mesma armadilha de apelo ao consumo. São reféns de uma situação grave e preocupante que, no Brasil, não foi ainda tratada com a urgência necessária, considerando os impactos negativos que provoca e ainda poderá provocar na formação educacional das futuras gerações.
Público-alvo de uma indústria que movimenta algo em torno de US$ 15 bilhões por ano, as crianças transformaram-se em um mercado altamente lucrativo. Por conseqüência, tornaram-se objeto do desejo de marcas poderosas que vendem tudo, de biscoitos baratos a games caros. Seus hábitos, gostos e comportamentos passaram a integrar estudos de marketing. Desenvolver uma mensagem capaz de despertar o impulso de consumir uma roupa, um sanduíche e um brinquedo, ou até mesmo produtos que nunca fizeram parte do seu universo, como maquiagem, passou a ser um desafio para criadores de agências de propaganda de todo o mundo."

E mais:

"A publicidade dirigida a crianças deve sim ter limites. E limites muito claros. Ao contrário dos adultos, as crianças não possuem maturidade cognitiva para compreender uma mensagem comercial em toda a sua amplitude. Não dispõem de mecanismos para fazer a necessária crítica ante aos apelos para o consumo. Quando pequenas, não conseguem diferenciar um comercial de brinquedo de um programa de entretenimento. Mas, a todo momento, são submetidas a uma bateria de mensagens comerciais cujo objetivo nada disfarçado é estimular o consumo de produtos e serviços de que não necessitam.
Consumir a última novidade passa, portanto, a ser uma necessidade em si. "

Para se informar mais sobre o assunto, clique no título da matéria.

A autora do texto. Milú Villela, 61 anos, é psicóloga e presidente do Instituto Faça Parte e Embaixadora da Boa Vontade da Unesco. Em novembro de 2002, foi a primeira mulher da sociedade civil a ser convidada para falar sobre o voluntariado na abertura da 57ª Assembléia Geral da ONU.

10.8.08

Debatendo a crise ambiental


Veja esta na Folha de São Paulo, página 3, dia 11 de Agosto

Estou sempre lá naquele espaço de opinião da Folha, semana sim, semana não.

29.7.08

Dia 9 de Agosto começa o Diário Gráfico no Rio



A prática de trabalhar em cadernos, seja para registro das fugazes idéias, seja como suporte para experimentação gráfica e conceitual, continua mais acesa do que nunca. Nem mesmo a incorporação das novas mídias digitais e as suas infinitas possibilidades de experimentação apagou o interesse pelo potencial do mundo analógico das páginas dos cadernos.

Os Diários Gráficos, como assim vêm sendo chamados, têm se mostrado um local de ilimitada liberdade para expressão criativa, experimentação e descobertas.

Livres da promessa de redenção proporcionada pelo botão de UNDO, os indivíduos criativos nascidos na era do computador, arriscam mais, experimentam novas possibilidades, tomam contato com a fisicalidade dos materiais, e neste processo colecionam acertos, erros e acidentes felizes. É justamente na possibilidade de encontrar-se com o acaso, o não-planejado, que enriquecemos a experiência do processo criativo.

No curso "Diário Gráfico", são praticadas diversas técnicas (colagem, monotipia, stencils e trabalhos de desconstrução e fragmentação) e também exercícios que propõem a experimentação intuitiva com materiais, achados gráficos, fotografias, transferências, desenhos, colagens e fragmentos do cotidiano. Tudo isto em um contexto onde não imperam as regras, os "certos e errados" e os "sins e nãos" que tanto tolhem a criação artística.

A parte teórica, com apresentação de diversos exemplos reais de sketchbooks, livros de artista e livros alterados, inclui também uma projeção de slides sobre as correntes mais contemporâneas das artes do livro, da diariografia, da ilustração e do design.

Ao final, os participantes aprenderão a costurar um livro em estrutura "Códex", a partir do material de grande formato produzido em aula.

Interessados devem escrever para estúdiomarimbondo@terra.com.br

Desenho Dinâmico, o curso

Começa no próximo dia 9 de Agosto, sábado, às 10:30h, o curso Desenho Dinâmico, que trata do registro gráfico da figura humana em movimento.

Este é um curso com uma proposta bastante original no ensino do desenho de observação, trazido das aulas "Drawing on Location" oferecidas no mestrado em artes da School of Visual Arts de Nova York.

Eu particularmente gosto tanto da prática nesta oficina que normalmente me vejo trabalhando junto com os alunos.



No Desenho Dinâmico trabalhamos com o modelo-vivo basicamente na forma de siluetas. Nossa modelo – uma artista circence – veste malha preta e os alunos usam pincel e nankim sobre papel jornal, kraft e similares de baixo custo. A partir da terceira aula praticamos o desenho de percepção das inter-relações figura/fundo, através do trabalho com tinta branca sobre papel preto. Desta vez, os participantes devem fazer a modelo surgir no papel através da pintura do espaço negativo ou das das chamadas "contra-formas" .

No Desenho Dinâmico não há espaço para hesitação, mas intuição e ousadia. As poses são rápidas e a produção intensa: um mínimo de 30 desenhos em 2 horas, dos quais os melhores serão usados para trabalhos de livre criação.

O programa conta com 4 aulas e o investimento é de apenas R$ 160,00. O local é o Estúdio Marimbondo, no Rio de Janeiro. Restam somente duas vagas.

Interessados devem escrever para estudiomarimbondo@terra.com.br

13.7.08

Este é um dos melhores filmes que eu já vi.

O Anima Mundo está começando e, para variar, eu não sei nada do que está na programação. Mas tenho aqui um DVD antigo do qual consta um dos melhores filmes que já vi. "Das Rad" é uma animação alemã indicada ao Oscar em 2003. Mais não falo. Veja.

6.7.08

O maior de todos



Este retrato do Ayrton Senna faz arte do acervo de 10 enormes painéis instalados nos prédios da Cruzada São Sebastião, localizado no bairro do Leblon, no Rio. Ali será instalado o Museu dos Grandes Personagens da História Brasileira, e os banners representam os 10 primeiros heróis escolhidos por voto popular dos moradores da Cruzada. Os heróis escolhidos foram: Dom Helder Câmara, Betinho, Zumbi, Monteiro Lobato, Vinícius de Morais, Santos Dumont, Princesa Isabel, Aleijadinho, Tiradentes e Ayrton Senna. O Museu é interativo e a cada ano, 2 personagens da "Galeria dos Retratos Monumentais" serão substituídos em votação pelos visitantes do Museu e os moradores da Cruzada.

Dentre os outros artistas participantes estão: Adir Botelho, Bandeira de Mello (de quem fui aluno), Siron Franco, Ziraldo e Chico Caruso

Esta é a lista dos 10 personagens escolhidos pelos moradores da Cruzada São Sebastião, com os respectivos nomes dos artistas responsáveis pela criação dos retratos:

AYRTON SENNA - Alarcão

ZUMBI - Airá o Crespo

SANTOS DUMONT - Vladimir Machado

MONTEIRO LOBATO - Ziraldo

D. HELDER CÂMARA - Tilher

TIRADENTES - Lídio Bandeira de Mello

PRINCESA ISABEL - Carlos Contente

VINíCIUS DE MORAIS - Chico Caruso

BETINHO - Siron Franco

ALEIJADINHO - Marcello Quintanilha

Em Julho no Festival de Artes de Porto Alegre



Amigos do Sul, fiquem atentos! Se não puderem fazer o curso prático, venham assistir à palestra e projeção de datashow na segunda-feira às 17:30h.

1.7.08

O Goya que não é mais



Quando eu era criança havia na biblioteca da minha casa uma série de fascículos sobre pintores chamado "Gênios da Pintura".

Passava longas horas entretido com aquelas páginas de tamanho generoso e cujas reproduções eram pra lá de razoáveis. Dentre as obras que deixaram uma marca mais profunda na minha memória estava "O Colosso" de Goya. Até hoje considero-o uma das pinturas mais sensacionais de todos os tempos.

O Colosso representa um gigante enfurecido que ameaça uma cidade e foi considerado uma das mais poderosas metáforas visuais sobre a guerra da independência de Madri de 1808, quando a cidade se rebelou contra a invasão napoleônica.

Pra mim era apenas um gigante enfurecido, incrivelmente real e ameaçador. Não se parecia nada com aquele gigante desajeitado e comilão que foi derrotado pelo alfaiate Mickey Mouse.

O gigante de Goya era um psicopata de mais de quinhentos metros de altura.

Agora descubro pelo site da BBC que o famoso gigante de Goya não foi pintado por Goya!

Meu mundo (fantástico) caiu.

25.6.08

Em Agosto: curso de Aquarela em MG



Em Agosto estarei em São Lourenço para uma oficina intensiva de Aquarela de 3 dias naquela cidade mineira. As inscrições estão abertas e os interessados devem ligar já para garantir uma vaga. Esperamos que a turma esteja 100% preenchida em breve.

Uma das nossas aulas será a "plein air" no Parque das Águas, como faziam os impressionistas.

Tenho as lembranças mais especiais da minha infância naquele parque. Pescava, andava de pedalinho, passeava de charrete, jogava migalhas para os patos, comia pães de queijo e sorvete de milho verde, e lá aprendi também a andar de patins (mas isso eu já esqueci...).



Como estará São Lourenço depois de mais de 30 anos?

24.6.08

Artista favorito



Conheçam Vicente Alarcão, 3 anos completados no dia 23 de Junho. Já pinta no Photoshop e com Tablet.

Quando pergunto à ele: "Meu filho, o que é isso que você está pintando?"

Ele responde com uma simplicidade matisseana:

"Estou pintando um desenho, papai".

23.6.08

Últimas gravuras à venda


Caros estas são as últimas gravuras digitais disponíveis.

Algumas destas ilustrações viajaram para longe (Salvador, Porto Alegre, Canadá...), outras foram presenteadas ou sorteadas dentre as crianças que foram me ver na feira de livros infantis do MAM. Tive também a honra de ter algumas delas adquiridas por colegas ilustradores de cujo trabalho sou fã.

No anexo estão os últimos exemplares. Resta apenas um de cada!
Depois só em dezembro.

Para levar sua gravura para casa escreva para renatoalarcao@terra.com.br.
O preço promocional é de 40 reais com frete incluso para todo o Brasil, mais a dedicatória e uma carta que leva o meu abraço caligrafado.

Mais detalhes aqui .

20.6.08

2012



Quem convive comigo volta e meia me ouve falar:

"Nem adianta espernear, de 2012 a espécie humana não passa!"

O jeito sarcástico, histriônico faz com que minhas palavras soem como ironia. É da minha personalidade ser gaiato, mas... desta vez ando mesmo preocupado.

2012 é o ano em que termina o calendário maia, aquele que -dizem - erra um segundo a cada 5000 anos.

O protocolo de Kyoto - aquele que fracassou na tentativa de controlar as emissões de CO2 - termina sua vigência em 2012.

Contaram-me também a respeito de um asteróide que está a caminho da nossa esfera azul. Uma ou outra revista científica informou em matérias minúsculas que os cálculos atestam que a montanha que vem do espaço está mesmo com dia e hora certa para uma visita à Terra: 2012. Será que evitam falar nisso mais abertamente para evitar pânico?

Recentemente a NASA juntou-se com o exército americano fez uma simulação de tiro em um satélite obsoleto que estava saindo ligeiramente da órbita e portanto perigava cair por aqui. Deu uma notinha no jornal. Fico aqui a matutar se aquilo foi um treinozinho de tiro ao alvo espacial.

Mas se houvesse mesmo um asteróide vindo em nossa direção, quem você acha que ficaria encarregado de explodi-lo? Os chineses? Os russos? os europeus?

O que mais é dito por aí sobre 2012?

Hum...2012 é também o ano quando se passa a história daquele filme absolutamente ruim chamado "Eu sou a lenda...".
Agora é melhor mudar de assunto.

Estava no taxi em São Paulo e, enquanto trafegávamos na marginal Tietê comentei com o taxista:

"É incrível pensar que há uns 60 anos atrás se realizavam competições de natação e remo nesse rio..."

"É patrão... o pior é que igual a este aí existem hoje mais de mil pelo mundo afora"

"Você já ouviu um papo de que o mundo vai acabar em 2012?", perguntei curioso, só para ouvir o que ele teria a dizer.

"Ihh patrão, esse negócio de mundo acabar vem desde o tempo de Nostradamus. Não rolava aí um papo de que ia acabar no ano 2000 e tal? Mas não aconteceu nada! Veja só nós aqui na praça, na batalha..."

"É meu caro, mas o que é um erro de 12 anos numa profecia? Não é nada! 12 anos é um centésimo de segundo na vida de uma montanha"

O taxista emudeceu por quase um minuto. Depois assentiu com a cabeça.

"O senhor tá certo. 12 anos não é nada mesmo. Perdi meu emprego de diretor de arte numa agência de publicidade já faz 12 anos".

Taxistas têm uma sabedoria peculiar. Passam muito tempo lendo jornais e ouvindo rádio enquanto a fila do ponto não anda.

Mas...mudando de assunto...

No bairro da Liberdade, almoçava com um amigo e em nossa mesa havia duas cumbucas de missoshiro, aquela deliciosa sopa de soja. Já viram como ela decanta rápido? Chega a ficar transparente em cima, a nuvem cremosa por baixo.

Em um momento vi-me com os olhos fixos na sopa, os palitos equilibrando o califórnia no ar quando, repentinamente, o meu amigo interrompeu meu devaneio:

"O que houve cara? Viu olhinhos submergindo na sua sopa?"

"Não. Vi o oceano, todos os oceanos do mundo", respondi com os olhos ainda vidrados na cumbuca.

"Ihhhh...então é grave"

E continuei:

"Cara você já pensou nisso? Todos os rios imundos do planeta carregam a nossa porqueira ladeira abaixo...eles inevitavelmente desembocam no mar. Já pensou como os oceanos devem estar? Já pensou que, embora eles nos pareçam límpidos e saudáveis na superfície, ou então nos seus primeiros duzentos metros, há uma possibilidade concreta deles estarem como esta tigela de missô?

"É verdade..."

"E os peixes? Peixe não é igual vaca ou galinha, que nasce e cresce confinado, come ração, tem veterinário, toma vacina... Peixe é um bicho selvagem, fica a nadar pra tudo que é canto, come o que passar pelo caminho..."

"É mesmo...podicrê..."

"Em geral quem compra peixe olha as guelras, vê se o olho está brilhante, dá uma cafungada e tal, e pronto, atesta que está fresco, leva pra casa e come, certo?"

"Claro, eu mesmo faço isso. Adoro peixe!"

"Mas quem, qual órgão de saúde pública, quem se dá ao trabalho de analisar a carne do bicho REGULARMENTE e a nível celular? Quem se dá ao trabalho de checar se tem ali alguma toxina, dessas que estão diluídas por aí pelos oceanos afora?"

"Cara, come o teu sushi que ele está caindo do palito"

Mudamos de assunto.

Eu tenho andado assim,... minha alma parecida com aquela cumbuca de sopa de soja, cristalina na superfície, mas embotada nos níveis mais profundos...

Sinto que este processo começou depois desse filme aqui.

Hoje desci um degrau a mais nesta sensação. Foi depois de ver este filme
aqui.

A primeira lâmina fez tcham, a segunda fez tchum.

Essa aqui fez tcham, tcham, tchaaaam!

Então boa sorte para nós. E que mantenhamos nossa sanidade até o final, mesmo que ele se demore a vir.

Citações

Garimpei umas citações boas sobre arte. Serão úteis em algum momento, tenho certeza. Vejam aí se estou certo.

Você não pode depender dos seus olhos se a sua imaginação estiver fora de foco.
Mark Twain

Milhares de gênios vivem e morrem sem serem descobertos, nem pelos outros nem por eles mesmos.
Mark Twain

Sem o talento o artista é ninguém, mas o talento também não é nada sem o trabalho.
Anônimo

O ferro enferruja pelo desuso, a água estagnada perde sua pureza e no tempo frio se congela; o mesmo faz a inatividade que embota o vigor da mente.
Da Vinci

Pobre é o pupilo que não supera seu mestre
Da Vinci

Criatividade requer coragem
Matisse

Deus permita que eu sempre deseje mais do que consiga realizar.
Michelangelo

O objetivo da arte não é reproduzir a realidade, mas criar uma realidade da mesma intensidade.
Alberto Giacometti

Levei quatro anos para pintar como Rafael, mas uma vida inteira para pintar como uma criança.
Pablo Picasso

Toda criança é um artista. O problema é permanecer artista uma vez que cresce.
Pablo Picasso

Criatividade é permitir-se cometer erros. Arte é saber quais deles manter
Scott Adams

A Inspiração existe, mas precisa encontrá-lo trabalhando.
Pablo Picasso

Eu te digo, quanto mais penso nisso, mais eu sinto que não há nada mais artístico do que amar as pessoas.
Van Gogh

19.6.08

Dr. Frankenstein



Há muitos anos atrás li a versão original do romance gótico "Frankenstein".

O livro, cujo subtítulo era "O Prometeu Moderno", tinha uma capa de couro bem trabalhada pela pátina do tempo e um forte cheiro de biblioteca londrina, o que conferia à ele um certo ar vitoriano. Nele estavam exatamente as palavras que uma jovem de 19 anos chamada Mary Shelley, havia escrito em 1816.

Naquele ano, Mary e seu futuro marido, Percy Shelley, estavam na Suíca em visita ao lorde Byron, um amigo que possuía um confortável chalé à beira do lago Genebra. O grupo passou a noite a prosear sobre diversos temas interessantes, como os avanços recentes da ciência, as novidades tecnológicas e também o sobrenatural (assunto que surge quando os horizontes são incertos e nebulosos). Sim, era uma noite fria e chuvosa, embora esta descrição se pareça um clichê literário.

Impressionava a todos eles as promessas da eletricidade, uma descoberta científica relativamente nova, e também as novidades tecnológicas trazidas por uma revolução industrial que ainda estava na sua infância, mas já evidenciava sinais de que poderia mudar a face do mundo. Graças às fábricas e suas chaminés, Londres já não era a mesma cidade aprazível de outrora.

Após lerem Fantasmagoriana, uma antologia alemã de histórias de fantasmas, os convivas do Chalé lançaram um desafio um ao outro: escrever sua própria história, tão assustadora e envolvente como aquelas que haviam lido juntos. Venceu a jovem Mary Shelley com o seu "Frankenstein or the modern Prometheus".

O subtítulo da obra faz referência ao mito de Prometeu, o titã grego que roubou o fogo dos deuses e o presenteou aos humanos, libertando-os da sua condição primitiva e animalesca. A alusão é óbvia: quando o médico Frankenstein busca conceder ao homem a imortalidade (através de descargas elétricas, a grande novidade da ciência então), ele o liberta da morte, e consequentemente da necessidade ou do temor a Deus.

Dr.Frankenstein brincou de ser Deus, e assim como o titã grego foi severamente punido por sua petulância.

A criatura foi chamada por Shelley de "Adam", o primeiro homem, formado do barro por mãos divinas. Mas, erroneamente, o feioso remendado entrou para a história mesmo como Frankenstein.

No texto original, a criatura ganhou o cérebro de uma criança de 5 anos (talvez por isso tivesse aquele andar desengonçado). Ao chegar nas cidades apanhava de pauladas e era apedrejado devido à sua aparência grotesca. Da mesma maneira como uma criança o faria, ele aprendeu a odiar sentindo na pele a rejeição dos adultos.

A saga do monstro ganhou o mundo em diversas versões na literatura, no teatro, na TV e no cinema, mas a força do original permanece.

A imagem que ilustra este artigo é do meu acervo pessoal e foi feita na técnica de monotipia. Mostra o médico Viktor Frankenstein no ártico à procura do monstro.

17.6.08

Pintando intuitivamente com vinho tinto

Ontem aconteceu a abertura do ilustraBrasil, onde, apesar da gelada noite paulistana, pude encontrar amigos e também ver muitas pessoas com cara de artista (certamente colegas da SIB, traços sem rosto e vice-versa), e passar os olhos por várias ilustrações legais.

Estou a passear entre música boa, vinhos e canapés idem, quando encontro um amigo ilustrador, que apressou-se em apresentar sua companhia: uma moça bonita, vestida com um sobretudo off-white em grosso tecido trançado que ia até a metade das pernas. Figurino elegantemente paulista para aquela noite fria.

Mal colocado entre os dedos da mão esquerda que seguravam a base da taça de vinho tinto, o meu canapé escapole no momento em que preparo-me para cumprimentar a moça. Em gesto intuitivo, tento agarrá-lo em vôo. Mas a intuição não pensa, simplesmente age: para agarrar o canapé uso a mesma mão que segurava a taça de vinho tinto cheia.

Em uma fração de segundo vejo aquela pincelada de vinho em pleno ar rumo ao inexorável encontro com o canvas que era a bela roupa da moça.

Agora havia um mapa vermelho sobre o lindo e grosso tecido off-white do casaco. Não tenho idéia da cara que fiz, mas deve ter sido ridícula. Todas as caras ridículas do mundo estavam grudadas na minha face.

Seguro a moça confortavelmente pelo braço e peço mil desculpas, milhões, todas as desculpas do mundo. Por dentro sentia-me humilhado pela minha burrice, minúsculo pela absoluta falta de lubrificante social.

"Desculpe, por favor, desculpe..."

Aquilo durou um décimo de segundo e eu pude ver que havia tanto vinho derramado que uma pequena poça já se formava entre os pés da moça.

Sim, agora era a hora dela mesma olhar o casaco e ver a merda que eu havia feito. Agora eu também teria que ver a cara que ela ia fazer, os dardos que seus olhos disparariam, a boca de onde inevitavelmente viria aquele palavrão instintivo. O horror, o horror...

Respirei fundo e preparei-me para o pior. Ela então disse:

- "Agora só falta você assinar, querido!"

A frase veio acompanhada de um sorriso que, estranhamente, me pareceu natural.

A resposta surrealista me desconcertou. Não combinava com o expressionismo abstrato de Pollock que eu acabara de criar em sua roupa. Mas ela continuava a sorrir naturalmente. Será que eu estava louco? Será que ela era louca?

Pedi então que me deixasse conduzi-la até o banheiro para jogar uma água sobre o casaco a tempo de evitar que a mancha de vinho tinto fizesse moradia permanente nas fibras de lã. Precisava muito recolher aquela moça dos olhares piedosos de quem estava ao redor. Afinal, o mico era meu não dela.

Na porta do banheiro ficamos eu e o meu amigo aguardando como pais numa sala de espera da maternidade. Eu pensava na possibilidade de cortar os pulsos com uma faca de plástico - para doer bastante - ou então fugir por uma saída pela esquerda, contanto que lá houvesse um elevador para o inferno.

O meu amigo estava tranquilíssimo (a moça era uma ex-namorada que havia se tornado sua amiga) e pediu que eu ficasse tranquilo também. Como? Impossível, hellooo, eu derramei vinho tinto sobre um casaco de lã com cara de super caro !

Ela estava se demorando um pouco para aparecer. Decidi ir para outro canto. Precisava sair daquela bolha desconfortável chamada "mico". Pedi licença e solicitei ao meu amigo que novamente dissesse à sua companhia que eu sentia muito, muito mesmo.

Encontrei em seguida alguns amigos e suas respectivas, e logo fui contar-lhes a história.

- Gente, preciso contar uma coisa: EU ACABEI DE PAGAR O MAIOR MICO DA MINHA VIDA.

Lá pelo meio do causo, as mulheres ao redor já estavam boquiabertas, os olhos molhados de lágrimas, não sei se por solidariedade à minha dor (!) ou se pelo sufocamento do desejo de rir. Ééé compadre... pimenta no cu dos outros é refresco!

Então ela apareceu. Acompanhada do meu amigo, lá vinha a moça do casaco de lã.

Ele estava imaculadamente limpo! Nem um resquiciozinho rosadinho sequer, nadica de nada daquela oferenda de Baco que eu havia usado para benzê-lo.

-"Mas o que é isso? Que milagre é esse???" (Por dentro eu já estava rezando minhas "salve-rainhas" e "santos anjos" de alívio e júbilo)

Sorrindo aquele mesmo sorriso de antes, a moça disse:

"O casaco tem proteção de teflon, querido!"

15.6.08

Ditadores




Dois artigos recentemente publicados na página de opinião da Folha de São Paulo entraram em choque entre si. O primeiro, escrito por um militar, atribuiu à esquerda brasileira o endurecimento do regime militar na década de 60 e 70 como uma necessidade estratégica para fazer frente à luta armada, que queria instaurar aqui uma ditadura do proletariado. O segundo texto comenta, dentre outras coisas, o seguinte:

"A violência sempre foi cultivada pelos dirigentes militares, situando-se no centro da estratégia para consolidar o autoritarismo, cujo propósito era desmobilizar e despolitizar a sociedade e impor um modelo econômico que privilegiasse a rápida acumulação capitalista naquele contexto de Guerra Fria. A escolha da força para se obter obediência levou os órgãos de segurança a uma posição de destaque. Os órgãos da polícia política constituíam um dos núcleos centrais do poder, onde se destacava o SNI, comandado por generais do Exército, entre eles Golbery, o seu criador em 1964 e idealizador da distensão posteriormente executada por Geisel, chefe da Casa Militar de Castelo Branco que negou a existência de abusos cometidos pelo regime, e o primeiro presidente a admitir, após deixar o cargo, a tortura como meio necessário para obter confissões."

A América Latina há muito tempo tem sido um terreno fértil de ditadores: Galtieri, Pinochet, Stroessner, Noriega, Médici... Que continente politicamente desafortunado, que chocadeira de celerados!

Falando de Brasil, não há como justificar idéias absurdas como o plano de mandar o gasômetro pelos ares (frustrado por um militar que se recusou a levar a idéia adiante), ou, pior ainda, aquele atentado frustrado no Riocentro, quando planejava-se explodir uma bomba no meio da platéia de um festival de música durante o feriado do dia do trabalho (a bomba acabou explodindo dentro de um carro, precisamente no colo do sujeito encarregado da missão). Matar jovens em um show de música seria represália contra quem, me pergunto...

E pensar que houve um tempo em que se poderia ser preso ou morto por causa de um desenho satírico ou algumas desabonadoras linhas de texto.

Machado de Assis


Este mês faz 100 anos que o nosso escritor maior morreu.

Para registrar a data nas Alarcrônicas, coloco aqui uma ilustração que fiz para o seu "Conto de Escola". O original (pastel e lápis prismacolor) vai estar na exposição Ilustrando em Revista, que a editora Abril vai promover no Rio em Agosto.

Para ler a história completa, clique aqui (é curtinha e dá pra ler no intervalo do cafezinho).

Todo mundo devia ler o Machadão!