22.2.10

Novo livro


Imagens de um livro em fase de finalização. Quando ficar 100% pronto volto a falar dele.

Ainda o MAC

Complementando o post sobre o carnaval, selecionei aqui esta aquarela do meu livro "36 Vistas do Cristo Redentor" com uma cena que mostra o Museu de Arte Contemporânea de Niterói (e boa parte do percurso das minhas caminhadas matutinas)
Olha a Ilha da Boa Viagem com o Redentor ao fundo.
E o velho Niemeyer, descendo a rampa, enquanto a criançada sobe. Passado, presente e futuro se encontram.

19.2.10

Um estudo de Klimt em aquarela

Registros de um carnaval batuque-free

Já fazia anos que eu não me exercitava... Frequentemente ao chegar na sexta-feira dava-me conta de que não havia caminhado sequer 1 km numa semana inteira!

Então, em dezembro passado ganhamos um cachorro e vi-me obrigado a assumir o papel de pai oficial da criatura, o que incluía, dentre outras tarefas inglórias (como limpar todo e qualquer "rastro orgânico" dele pela casa), os passeios diários.

O que eu não sabia é que isto faria o sangue voltar a visitar lugares outrora esquecidos do meu corpo. Isso me trouxe ainda uma distração positiva.

Já me sinto apto a dar esta sugestão a quem está vivendo um momento quase 100% sedentário no que diz respeito a atividade física: arrume um cachorro e mude positivamente de hábitos.

Meu personal trainer canino espera ansioso já às 7:30h da manhã. Salto fora da cama e logo estou pronto para minha corrida matutina no calçadão de Niterói. 

Conforme havia aprendido em PNL, "bastam 21 dias de disciplina e persistênsia  para que um novo hábito se instaure", passei a exercitar-me regularmente. Acho que até tomei gosto pela coisa.

Neste carnaval que passou aproveitei minhas caminhadas para levar comigo os meus cadernos e materiais de desenho para passear.

Compartilho aqui alguns registros.


 O trajeto pela orla de Niterói onde fica o MAC, aquela maravilha do Niemeyer, é dos mais bonitos. Gosto especialmente da Ilha da Boa Viagem, que é conectada à cidade por uma ponte e guarda em seu topo um mosteiro de mais de 200 anos.

O caderninho que está aqui é o Moleskine original, de formato bem pequenininho. Este foi presente da querida amiga Elisa Shellard, e vem de fábrica com páginas contendo uns frames, que são perfeitos para o animador ou o cineasta rabiscar uns planos. No meu caso, ele é ideal para registrar "thumbnails", aqueles croquis minúsculos, mas que encerram as grandes questões da obra final como equilíbrio de valores e linhas de composição, além das cores. 

Esta página aí de cima tem umas ideias para um artigo da Folha de São Paulo sobre a lei anti-fumo (que eu apoio!)

Um navio repleto de carros, navega em frente às ilhas da saída da Baía de Guanabara. Para esta aquarelinha precisei pegar emprestado o binóculo do vendedor de cocos que trabalha ali ao lado do MAC.

 
Ilha da Boa Viagem com o Pão de Açucar ao fundo. Caiu uma gota escura no céu e eu tratei de colocar um avião. Aliás, o aeroporto Santos Dumont fica por ali mesmo.
Nessa aí tem até areia misturada nas manchas...A Baía de Guanabara é um dos cenários mais lindos do Rio. Tomara que consigam despoluir suas águas (Alô Eike Batista! Dá uns milhão aê pra essa causa?)

Abaixo a pescadora com sua cinturinha de ovo (ou corpinho de frigobar de motel). Que personagem!


Neste outro caderno aí em baixo, bem maior e com um papel adequado, fiz este detalhe da casa do Juvenal, que é o zelador da ilha. A ponte da Boa Viagem conecta-se à direita da sua casa.
Aquarela sobre papel ingres bege. Detalhes em gouache branco na casa. 
Tudo feito ali no local, com a bunda na areia. 

No desenho de locação parece que nos faltam mais braços para segurar tanta tralha: caderno, pincel, paleta, pote de água, coleira do cachorro...



Tristão e Isolda

Na primeira quinzena de Janeiro finalizei as ilustrações do livro Tristão e Isolda. Estas são algumas delas.

Esta proposta de capa não foi aprovada, muito embora seja uma das minhas favoritas.
As história se passa numa região da Inglaterra chamada Cornwell, ou Cornuália. 

Parênteses cultural:  Camila Parker Bowles, mulher do príncipe Charles tem o título nobre de Duquesa da Cornuália (convenhamos, uma ironia, já que aquele romance foi uma corneação só...)
E por falar em dragão, este é mais um dragão que pintou na minha vida de ilustrador...

Beleléu, uma revista colaborativa

A Revista Beleléu, para quem não conhece, é um projeto colaborativo de 4 cabeças, Stêvs, Daniel Lafayette, Elcerdo e Ed Arruda, sendo os dois últimos ex-alunos meus.

Com histórias em quadrinhos "estranhíssimas no bom sentido",  tiras, ilustrações, cartuns,  e um design caprichado, a revista foi um dos mais incensados lançamentos independentes do ano passado.

Agora eles vêm com novidades para 2010, com um círculo ainda maior de colaboradores.

Dentre os novos projetos está o dominó ilustrado (ia ficar show fazer uns imãs de geladeira pra brincar com isso...), e a sensacional série de posters (que eu particularmente chamei de "Monstros do cotidiano"). Foi combinado assim: cada artista convidado teve que desenhar um monstro qualquer vivendo uma situação banal no seu dia-a-dia. A única regra para a brincadeira é que a arte tivesse somente 2 cores (por acaso estão planejando fazer uma série em silk? Eu quero todas essas criaturas!)

Quem acompanha meus Twits já deve ter lido meus elogios à prática da auto-publicação e dos projetos colaborativos como estes que o pessoal da Beleléu tem feito. Junte-se aos seus amigos e mãos à obra!


alarcaoSe o projeto é colaborativo, sem fins lucrativos ou pelo menos do tipo que capitaliza só o suficiente pra pagar a gráfica, eu participo.
alarcaoE melhor ainda, se for açao entre velhos amigos, brainstorming com chope e belisquetes, aí sim eu tô dentro.

Agora retirem as crianças da sala, pois vem aí o meu monstro criado exclusivamente para a Beleléu,  ó.

18.2.10

39 Clues

A série de livros 39 Clues chegou ao Brasil pela editora Ática. Os livros já trazem consigo uma trajetória de sucesso nos EUA junto ao público adolescente. 

Cada livro um escritor diferente, porém ficam mantidos todos os personagens, dentre eles, Amy e Dan, dois irmãos, ele 9 e ela 13 anos. A dupla participa de uma corrida entre herdeiros de uma mesma fortuna.

As histórias da série 39 Clues se interconectam livro a livro, e a ação ocorre em cenários tão diversos como Paris, Coréia, Egito, Veneza, etc. Ao longo deste percurso por diversos lugares no mundo, os irmãos devem decifrar 39 pistas que vão garantir que cheguem com sucesso ao destino final, no caso, uma fortuna deixada pela avó.

Leitores ganham também um passe para participar de um game online, ou algo assim (pois admito ainda não conferi todos estes bonus do projeto).

Deve agradar bastante esse nicho de público por aqui pelo Brasil. 

Informações sobre a coleção:



Composta por 10 livros, escritos por diferentes autores
É bestseller pelo jornal The New York Times
Vendeu milhões de exemplares no exterior
Traduzida para 20 idiomas
No site americano, há um game on-line da coleção


Por aqui os livros 1, 2, 3 e 4 já sairam da gráfica.

No primeiro a ação acontece no cenário das catacumbas de Paris.Vejam nas imagens abaixo alguns rafes não utilizados (este primeiro foi usado depois em um outro trabalho), estudos de cor e composição etc.


.

Frequentemente me vejo curtindo muito mais um estudo do que propriamente sua arte final. 


Arte final


O projeto gráfico da série ficou a cargo do Kiko Farkas e seu Máquina Estúdio, que conceituou o projeto para parecer uma embalagem de game.


Pra lá ou pra cá? Olhando pra trás ou para a frente? Ops, cuidado com a tarja, olhaí um logotipo te acertando por cima....

Encaixar a ilustração na malha gráfica e estabelecer um equilíbrio na relação com elementos de design (Título, tarjas, etc) foi um desafio neste projeto. Nesta sequência pode-se ver os diversos testes de posicionamento em relação às tarjas e tipos.



E aqui a arte final da segunda capa, que traz uma história passada em Veneza.A lancha ganhou vidro, e mais umas coisinhas tipo jogo dos 7 erros para se descobrir.


A ilustração para a capa do quarto livro da série 39 Clues traz uma cena de perseguição em um mercado cheio de camelôs egípcios, com suas barraquinhas, metais, candelabros e esculturas. 

Recebi hoje o material promocional abaixo, que anuncia o lançamento do livro 4 no dia 2 de Julho. 




26.1.10

Alarscans 3


Mais uma da série "Alarscans", um exercício inócuo e de absoluta ausência temática. Objetos encontrados ao acaso são dispostos sobre páginas de sketchbooks.
Há outras aqui e aqui.

Meus passeios matinais na praia têm rendido algumas descobertas curiosas.

4.1.10

Revista Ilustrar 14

Já está disponível no site da Revista Ilustrar a nova edição.



Neste número minha coluna traz um assunto que interessa a todos nós ilustradores.

"Aproveitando o habitual misticismo de início de ano e a vontade de cantar a plenos pulmões que “este ano não vai ser como aquele que passou”, este primeiro artigo de 2010 vem trazer reflexões e um leve exercício de futurologia para os ilustradores."

Baixe gratuitamente o PDF e boa leitura (das palavras e das imagens!).

28.12.09

Entrevista (em audio)

A rádio UNESP me entrevistou para um programa bacana chamado perfil literário. Há muita gente boa do meio literário e editorial para se ouvir por lá. A minha entrevista está numerada como 450. Vou fazer uma mandinga básica com esse número para ver se rola alguma bocada nesse sorteio da megasena do dia 31.

21.12.09

Por que eu não gosto do bom velhinho...


Um colega ilustrador mostrou esta foto dele quando criança.

HO. HO, HO huahahenhen heheh ... schlept.

Que em 2010 os seus desejos...

15.12.09

Aquarela em 2 cores


Feita durante a aula de aquarela (enquanto os alunos não me chamavam...), a partir de foto do Sebastião Salgado.

Vai aqui uma dica boa: enquanto não se domina a cor, vale estudar somente com 2 cores, (neste caso, ultramarine e sépia). Nesta mistura os cinzas podem transitar entre o quente e o frio. Aprende-se muito também sobre valores de claro e escuro, um conceito fundamental em pintura.

14.12.09

Diário Gráfico 2009: fechamos com chave de ouro


De volta de São Paulo, onde aconteceu a última rodada da oficina do Diário Gráfico. Veja aqui imagens do que rolou.

O ano de 2009 me trouxe muitas alegrias neste contato com gente criativa, todos conectados "animicamente" pelos cadernos de ideias e sobretudo, virtualmente, através da lista do Diário Gráfico. Nosso exclusivo grupo online está chegando à marca de 500 associados, 99% deles participantes desta oficina (de Porto Alegre a Manaus, passando por Passo Fundo, Fortaleza, Recife, Rio e São Paulo).

Fica aqui meu abraço especial a todos os criativos participantes deste grupo. Eu não disse que vocês conseguiriam chegar até o final?

Será que desta vez eu acerto o nome de todos?

De pé (da esquerda para a direita): Dacosta, Tamara, Danilo, Daniele , Andrea, Mariana, Domingos, Alarcão, Letícia, Marcelo, Bárbara, Rafael(levantando o caderno), Helio, Matheus
No meio: Regina, Tatiane, Norie
Em baixo: Thais, Thais Guerra, Judy, Karine

Em 2010 tem mais!

10.12.09

Stencils

Viva o polvo da criatividade!

Alguém me ajuda escrever isso em francês (seria "Vive le pup de la creativité?").

Lembrei aqui de um cartaz de guerra maravilhoso que dizia "Morte ao Polvo da Guerra", mostrando um desenho de um polvo de capacete nazista e vestido com uma máscara de gás. Cacei esse danado no Google mas não achei. Agradeço se descobrirem o link.

Ainda falando de polvo, não há no mundo marinho criatura mais gostosa de se comer. Agradeço imensamente ao sujeito faminto e corajoso que olhou para este monstro e disse: "vou comê-lo"




Uma dica para os apreciadores de stencils que se esfalfam ao recortar suas peças com estilete: um ferro de solda com uma ponta de agulha vai cortar as radiografias como se fossem de manteiga.

23.11.09

Em Dezembro tem Diário Gráfico em São Paulo

O Diário Gráfico voa até São Paulo nos dias 12 e 13 de Dezembro para a última rodada criativa de 2009. E a turma já está 100% completa (e com lista de espera) !


Esta é uma parceria com o
Ideafixa, que ficará responsável pela divulgação e pelas inscrições do workshop.

As aulas vão acontecer na Ponto de Contato, Rua Fradique Coutinho, 137 - 3º andar

O Diário Gráfico é uma oficina de desbloqueio criativo que usa o livro como suporte. O programa é focado na prática de trabalho nos cadernos ou sketchbooks, livros alterados (“altered books”) e livros de artista.

Para saber como colocar a sua cidade no mapa das oficinas escreva p/ alarcao_workshops@terra.com.br para saber )

Domingo de sol

Adivinhe pra onde nós vamos? Aluguei um caminhão, vou levar a família na praia de Ramos...

22.11.09

A melhor vista do Rio

Dizem que Niterói tem a melhor vista do Rio...
No feriado de Zumbi aproveitei o tempo bonito para levar meu filho para curtir o Parque da Cidade, point da rapaziada que gosta de voar. A paisagem que se vê de lá de cima é inigualável...


Voa moleque!


17.11.09

Argumentação pelo fim do atual sistema de educação

Até hoje eu nunca havia ouvido falar no casal Toffler (Alvin e Heidi). Então recebi um link pelo twitter e assisti a este video com pouco mais de 6 minutos.


Outro dia desses mesmo estava conversando sobre o assunto Educação com uma amiga. Disse à ela:

"Acho uma pretensão e uma arrogância as escolas dizerem que preparam as crianças para o futuro. Principamente porque hoje o futuro muda vertiginosamente a cada ano, paradigmas caem como dominós graças à revolução digital, que trouxe a reboque uma revolução ainda maior na comunicação, nas relações de trabalho e na produção. O futuro precisa de gente criativa, inventiva, que pensa fora da velha caixa de fórmulas."

Alvin e Heidi Toffler são escritores e futurologistas.

Imagino que, se alguém no Brasil recebesse a qualificação de "futurologista", na hora imaginaríamos um turbante na cabeça, um tabuleiro de búzios, uma bola de cristal, pinturas cafonas de avatares luminosos dependuradas nas paredes e umas pirâmides decorando o ambiente. E as declarações que sairiam de sua boca?

"Em 2012... a Grazi Massafera terá um filho com Cauã Reymond!"

Acredito que um futurologista não é nem um mago, nem um intuitivo e muito menos um adivinho. Ele prevê o futuro quando soma o seu vasto conhecimento do passado com uma arguta observação do momento presente.

Tenhamos todos um bom futuro.


16.11.09

E o Oscar foi para...um ladrão!

Eu tinha 10 anos quando assisti ao curta "The Fly" pela primeira vez. Até hoje ele me dá coceiras...


Uma busca rápida no "pai dos burros digitais" (Google), e me deparo com uma insólita história em torno de Ferenc Rofusz, criador desta incrível animação vencedora do Oscar em 1981.

Parênteses: aquele foi o ano em que Reagan levou um teco, para sorte do Sebastião Salgado, único fotógrafo ali para documentar o atentado.

Mas voltando ao Rofusz, o cinesta vivia na Hungria, um dos países da chamada cortina de ferro, lugar onde as liberdades individuais e artísticas eram esmagadas sob o peso da ditadura comunista. Obviamente não obteve autorização para ir aos EUA receber seu merecido prêmio.

Mas, para sua surpresa, viu de casa pela TV um sujeito barbudo e completamente desconhecido subir ao palco da academia de artes cinematográficas para receber o Oscar por "The Fly". O cara-de-pau fez-se passar por criador do filme e, de estátua dourada na mão, proferiu com forte sotaque seu breve discurso de agradecimento antes de desaparecer para sempre no éter.

Conheça o verdadeiro Rofusz aqui

11.11.09

O templo


Detalhe de uma arte final que estou fazendo esta noite.
Aliás, ultimamente só mesmo à noite consigo produzir.

Comercial vencedor em Cannes

Gentileza gera gentileza


A mais subestimada das virtudes humanas faz muita falta no mundo. Por ELIANE BRUM

Vivo num prédio em que boa parte das pessoas não dá bom dia. Nem mesmo um grunhido. Nada. Fora o resto. Na semana passada, abrimos o porta-malas do carro para retirar as compras do supermercado, bem ao lado do elevador. Duas mulheres puxaram a porta antes que conseguíssemos alcançá-la, para não ter de dividir o elevador. Puxaram a porta, porque se ela tivesse fechado naturalmente teria dado tempo de entrarmos. Dá para acreditar? Claro que dá. Volta e meia cruzo no pátio, indo ou vindo, com gente que vai ou vem – e abaixa rapidamente a cabeça para não cruzar os olhos e, então, ser obrigada a me cumprimentar. Essas pessoas não me conhecem, nem sabem se sou bacana ou chata, logo, não é pessoal. Até o zelador, cujas atribuições incluem dar bom dia, só cumprimenta quando está de bom-humor.

Então, aconteceu.

Aquele vizinho, em especial, me irritava muito, porque ignorava solenemente meus sonoros bom-dia e boa-noite. Ele simplesmente passava por mim – e por todo mundo – numa marcha militar, olhos fixos em alguma movimentação de tropas no campo adversário. Eu voltava da minha aula de pilates, na manhã de quarta-feira, toda alongada e saltitante, quando o vi avançando em passadas largas na minha direção. “Bom dia!”, eu disse. Nada. Grilos. Cri, cri, cri.

Aquilo me irritou muito. Mas muito mesmo. Não pensei. Simplesmente me virei, marchei mais rápido do que ele, postei-me na sua frente e gritei: “Bom dia! É importante dar bom dia para as pessoas!”. Ele ficou totalmente desconcertado. E o resto eu não vi, porque marchei direto para o elevador, num passo tão marcial como o dele.

Foi uma cena totalmente absurda. Eu fui absurda. Até é possível reivindicar boa educação – embora seja cada vez mais difícil. Mas é impossível exigir gentileza. E não é nada gentil obrigar alguém a ser gentil. Eu fui o oposto de gentil gritando diante do homem que ele deveria ser gentil.

Mas o episódio serviu para que eu pensasse nessa virtude tão subestimada em nosso mundo. Gentileza parece algo menor, descartável. Em alguns casos, até meio otário. Ou fora de moda. Até para escrever essa coluna me pareceu prosaico demais. Pensei: vão achar que estou sem assunto. Então, decidi correr o risco de soar piegas.

“Gentileza gera gentileza”, o título da coluna, foi tomado emprestado dele, o próprio Gentileza. Se você não o conhece, vá atrás de sua história. Garanto, vai ganhar o dia. Eu mesma, na minha ignorância, só sabia que Gentileza havia sido um poeta das ruas que escrevia pelas pilastras do Rio de Janeiro, um pouco maluco, meio folclórico, um tanto extraordinário. E que um dia foi tema de uma música de Marisa Monte. Era bem mais do que isso, descobri. Gentileza foi um grande homem, com um grande legado e uma grande vida.

Passou a maior parte dela pregando a gentileza como um modo de existir. Depois que morreu, em 1996, velhinho, aos 79 anos, a Companhia de Limpeza Urbana do Rio cobriu seus escritos nas pilastras do viaduto do Caju com tinta cinza. Não podia ser mais simbólico. O apagamento de Gentileza gerou um movimento de reação chamado “Rio com gentileza”, que resgatou o livro urbano de Gentileza e propõe a gentileza como uma forma de estar no mundo. Comecei a pesquisar sobre o Gentileza na internet e de cara
entrei no site do movimento. Depois de uma delícia de passeio por lá, saí com vontade de propor o movimento Brasil com gentileza para o meu vizinho.

É sério. Parece pouco. É muito. Faz uma enorme diferença. Quando somos maltratados em algum lugar, por alguém, isso já envenena o nosso dia. E desencadeia reações desencontradas em cadeia. Por outro lado, às vezes nem percebemos, mas a beleza de outro dia, nosso suspeito bom-humor num dia comum, começou lá atrás, quando alguém teve um gesto gentil, nos acolheu com simpatia, nos tratou bem. Seja o nosso chefe, o motorista do ônibus, o balconista da padaria. Faz bem para a vida ser tratado com gentileza. E um gesto gentil também desencadeia reações similares em cadeia. Gentileza, o profeta, tinha toda a razão quando respondia aos que o chamavam de maluco: “Maluco pra te amar, louco pra te salvar”.

Gosto muito de observar as pessoas, os enredos. Percebo que grandes desencontros são desencadeados por um detalhe muito pequeno. É como aquelas cenas de animação, em que o personagem tira uma pedrinha do lugar e causa uma avalanche. Você já deve ter visto em alguma reunião de empresa ou mesmo dentro de casa ou numa repartição pública. Alguém fala algo sem nenhuma gentileza, que poderia ser dito de um jeito muito mais cuidadoso. O destinatário daquela mensagem recebe como agressão e retruca um tom acima. Daí em diante, já era. Não acaba em nada de bom.

Se cada um de nós fizer uma reconstituição mental do nosso dia, hoje mesmo, vai perceber que o pior dele foi causado porque não foram gentis conosco nem fomos gentis com os outros. Desde o bom dia que faltou, o por favor que não foi dito, a buzina desnecessária no trânsito, a cara fechada, o sorriso que economizamos, a ajuda que poderíamos ter dado e não demos, ou ainda a que não recebemos, o elogio que não veio, a crítica que deveria ter sido feita para somar, mas foi programada para massacrar, o veneno que escorreu da nossa boca e da dos outros. Uma soma de pequenos e desnecessários gastos de energia que só serviram para nos intoxicar.

Gentileza é o exercício cotidiano de vestir a pele do outro. É cuidar não de alguém, mas de qualquer um. Mesmo que ele não seja nosso parente, mesmo que seja um estranho. Cuidar por nada. Sem precisar de motivo. Cuidar por cuidar.

Por que algo tão essencial se tornou supérfluo? Porque gentileza não se consome, talvez. Não tem valor monetário. Não se ganha nada de material com ela. Também não custa nada.

Esta, em parte, é a insubordinação contida na arte de Gentileza, o poeta das ruas. Ele, que nunca aceitou um centavo pela sua gentileza. Dizia: “Cobrou é traidor – o padre tá esmolando, o pastor tá pastando e o papa tá papando, papão do capeta capital”.

O resgate desta gratuidade, de algo que é dado sem esperar nada em troca, é o que faz nosso mundo estremecer. Como o que Gentileza deu à cidade do Rio de Janeiro: não apenas seus escritos, mas seu existir. Sua estética era sua ética, ele as continha ambas no seu viver.

Era grande o que ele gerava nas vizinhanças do Caju, ao dar algo que ninguém pediu – sem querer ganhar nada com isso. Nos últimos tempos só acenando sorridente ao lado de sua obra física. Suavemente ele punha abaixo a lógica do mundo. Só sendo. E ser era tão subversivo que, na época da ditadura, chegaram a achar que Gentileza era comunista. Teve de dar explicações às autoridades sobre as iniciais PC do estandarte que então carregava pelas ruas: não, não, PC não era Partido Comunista, mas Pai Criador.

Hoje, tratar mal as pessoas, marchar pelos corredores, fechar a cara, não dar bom dia e dizer coisas duras sem nenhum cuidado parece ser um atributo dos poderosos. Quase uma virtude. Ao conhecer alguns CEOs por aí, fico imaginando se no currículo deles está escrito: “Há 20 anos grita com quem está abaixo dele na hierarquia”. Ou: “Tem PhD por Harvard em humilhação dos subordinados”. Ou ainda: “Massacra os funcionários em inglês fluente, mas se for necessário pode xingar também em francês e mandarim”.

O conjunto de características que costuma cercar o poder é imediatamente incorporado pelos subordinados. Nessa lógica, há sempre alguém mais ferrado que podemos maltratar, a quem não precisamos beneficiar não com a nossa gentileza, porque gentileza não tem nada a ver com isso, mas a quem não precisamos beneficiar com a nossa bajulação. Canso de ver motoboys ser maltratados por recepcionistas de empresas chiques, enquanto me tratam bem porque numa rápida avaliação da minha roupa acreditam que talvez, quem sabe, posso ser alguém importante. Canso também de ser gentil e, por isso, ser tratada com rispidez, porque confundem minha gentileza com fraqueza. Recuso-me a embarcar nessa lógica que me obrigaria a falar alto e exalar arrogância para ser tratada com deferência. Prefiro falar com delicadeza e exalar apenas o meu perfume.
Acho que ser gentil não é nada prosaico, é um ato de resistência diante de uma vida determinada por valores calculáveis: só faço tal coisa se ganhar algo em troca, seja dinheiro ou um dos muitos pequenos poderes ou um ponto a mais com quem manda. A gentileza vira essa lógica do avesso: sou gentil sem esperar nada em troca. Sou gentil porque sou. Não porque tenho ou porque quero. Apenas sou. E, como sabemos, o ter – o consumir desenfreado – é aquele que vai tentar preencher o buraco aberto pela impossibilidade do ser.

Numa de suas internações porque alguém decidiu que ele era louco, Gentileza passava os dias com os outros internos ao redor, pregando sua gentileza. Até que um psiquiatra teria dito: “Gentileza, você veio aqui para nós te curarmos ou para você nos curar?”. Alguém que, como ele, havia se desfeito de todo o patrimônio para pregar a gentileza só poderia mesmo ser considerado louco nesse mundo. Mas, ainda bem, havia um médico que também era um pouco doido para devolver Gentileza às ruas.

Dia desses flagrei-me sendo indelicada com a moça do telemarketing. Me senti muito mal. É chato, todo mundo sabe. Ela também acha chato, tenho certeza, ter de falar como um robô horas a fio, dia após dia. É bem pior para ela do que para mim. Desde então, tenho me esforçado. Pouco antes de começar a escrever esse texto peguei a mim mesma respondendo secamente a uma assessora de imprensa que ligou, errando o meu nome (Elaine Blum) e perguntando se eu trabalhava com um tema que não tem nada a ver com o que faço. É verdade que não é legal errar o nome e a área das pessoas para quem queremos dar uma informação, mas também é óbvio que ela preferia acertar. Às vezes até nos convencemos que temos razão de sermos incivilizados, mas não temos. Se tínhamos alguma, a perdemos no momento em que agimos mal. E sempre há um jeito de dizer, mesmo coisas muito duras, sem arrasar quem nos escuta.

Tenho uma grande amiga que se apaixonou por um homem numa festa. Foi um dos poucos casos de amor ao primeiro gesto que testemunhei. Ela derrubou comida na roupa e ele imediatamente pegou um guardanapo para ajudá-la a se limpar. Logo depois, a encontrei no banheiro e ela me pegou pelo braço: “Vou casar com aquele cara”. E eu, chocada diante de alguém que era famosa por ser avessa a casamento: “Como assim?” E ela: “Ele é gentil”. Ele era – e é – um homem incrivelmente gentil. Estão juntos há sete anos, e o deles é um dos casamentos mais felizes que conheço. Minha amiga, que tinha alguns cantos bem abruptos, ganhou contornos mais arredondados: descobriu que também havia uma mulher gentil morando dentro dela.

Gentileza não é mesmo algo que temos, é mais algo que somos. E que nos tornamos. Talvez o verdadeiro poder esteja naquele que pode dar sem esperar nada em troca. Como Gentileza.

Assim como inventaram um dia sem carro, acho que podíamos criar um dia com gentileza. Não precisa ser uma campanha de massa, basta uma decisão interna, silenciosa, de cada um. Só para experimentar. Um dia só tentando ser gentil. Engolindo a palavra ríspida, calando a fofoca ainda no esôfago, olhando de verdade para as pessoas, escutando o que o outro tem a dizer, mesmo que não nos pareça tão interessante, sorrindo um pouco mais.

Pequenos gestos. Segurar o elevador, dar oi e dar tchau, não se atravessar na frente de ninguém nem sair correndo para ser o primeiro, ter paciência em vez de se irritar, elogiar um pouco mais, deixar passar o que não foi tão legal, mas também não foi tão grave e, quando a crítica for imprescindível, abusar da delicadeza. Um dia só, mesmo que seja apenas para experimentar algo diferente.

Quem sabe o que pode acontecer?

ELIANE BRUM é repórter especial de ÉPOCA, integra a equipe da revista desde 2000. Ganhou mais de 40 prêmios nacionais e internacionais de Jornalismo. É autora de A Vida Que Ninguém Vê (Arquipélago Editorial, Prêmio Jabuti 2007) e O Olho da Rua(Globo). ebrum@edglobo.com.br

9.11.09

Coisas lindas que se fazem em preto e branco

United Snakes from Stephen Walker on Vimeo.

Um lembrete

Ilustradores, por favor:

Deixem as espirais em paz.

Vestibular

Ilustração de capa de caderno de Vestibular da Folha de São Paulo. Ainda sob impacto do filme "Up", como se pode ver.
Lembro-me que o ano em que fiz Vestibular foi justamente o de mudança no formato das provas. Pela primeira vez entraram questões discursivas (antes haviam somente aquelas de múltipla escolha). Passei para a Escola de Belas Artes da UFRJ e para a PUC do Rio. Escolhi a primeira porque era mais perto e de graça. E foi lá que plantei a semente que fez de mim hoje um ilustrador.
As melhores lembranças que tenho são aquelas vividas nos ateliês de gravura do querido mestre Kazuo Iha. Arigatô Kazuuu!

6.11.09

Capa do jornal Le Monde Diplomatique

Nas bancas a edição de Novembro, com uma capa ilustrada sobre os programas assistencialistas do governo Lula. Design e direção de arte do supertalento zen e campeão da simpatia Daniel Kondo


1.11.09

Saúde!

Arte para o jornal Folha de São Paulo.