10.8.07

Le Monde Diplomatique, alimento pra cabeça (e para os olhos)



Já está nas bancas a primeira edição do Le Monde Diplomatique em sua versão brasileira, que veio preencher um espaço que estava vazio na nossa imprensa, oferecendo um olhar crítico e analítico sobre o mundo e o país.

O projeto gráfico está nas mãos de Daniel Kondo, ilustrador e designer, que me deu a honra de criar a ilustração que está na capa desta edição histórica.

Além do melhor do jornalismo mundial, com análises aprofundadas sobre grandes temas econômicos, sociais, políticos, culturais e filosóficos, o mensário traz uma proposta visual que apóia-se firmemente no uso de ilustrações. E os desenhos estão em quase todas as páginas, com trabalhos de Claudius, Seymour Chwast (do legendário Pushpin Studio), Tide Hellmeister, dentre outros.

Graças à experiência do Kondo, que conhece bem o lado de cá, todo o trabalho de criação da capa foi desenvolvido da forma certa: o ilustrador teve total liberdade para sugerir uma imagem que melhor traduzisse o tema "América Rebelde". Melhor dizendo, nenhum jornalista se meteu a "brifar" o conteúdo do desenho.



Desta maneira, apresentei 3 idéias, das quais partimos para a finalização desta que representa uma realidade na atual sociedade americana: o desconforto dos cidadãos americanos com a apropriação dos seus símbolos mais sagrados por uma classe política que tem em Bush seu sacerdote-mor.
Vejam só essa... meus amigos americanos contam que desistiram de pendurar a "star and stripes" nos mastros à porta de suas casas depois de constatar que sua bandeira tornou-se escudo moral para os desgovernos republicanos.



Então é isso. Corram para comprar a sua edição do Le Monde Diplomatique. São 40 mil exemplares e, pelo que fiquei sabendo, as bancas já estão pedindo reposição de estoque.

A ilustração editorial brasileira merecia este espaço!

26.7.07

Vem aí a quarta edição do Ilustra Brasil!


Vem aí a quarta edição do Ilustra Brasil!, organizado pela SIB – Sociedade dos Ilustradores do Brasil e pelo Senac-SP para celebrar o universo destes artistas que, trancados em seu estúdios, inventam o mundo onde antes havia apenas o papel, a tela, o mapa de bits em branco.

Novamente o evento acontecerá no Senac Lapa-Scipião (Rua Scipião, 67 – Lapa – São Paulo-SP) entre os dias 6 de agosto e 6 de setembro com uma programação que inclui palestras, oficinas, debates e, claro uma super exposição de mais de 90 ilustrações com idéias, técnicas e estilos tão diversos quanto o próprio Brasil.

Convido a todos a fazer uma visita ao site http://ilustrabrasil.sib.org.br/

Este ano o IB!4 traz ainda o convidado internacional Hermenegildo Sábat, legendário cartunista argentino.
Conheci o Sábat pessoalmente no XV Salão Carioca de Humor de 2005, quando ele me entregou em mãos o prêmio de melhor cartum com a ilustração "Lava Jato", o primeiro e único desenho de humor que fiz na vida (é só clicar no título)

Quem quiser ver, que olhe


"muitos artistas olham os ilustradores com um certo desdém porque trabalhamos por dinheiro, com prazos a cumprir, e frequentemente nossos temas são prescritos por um editor. Nossa arte é "legível" e muitas vezes carece de complexidade de conteúdo, o que a afasta do discurso das artes plásticas"

Se, no passado, afirmações como estas eram como regras que segregavam a ilustração como mera decoração, entretenimento visual ou em última análise, o "primo pobre nas artes visuais, hoje vemos uma verdadeira revolução na importância que nossa arte assume na cultura visual contemporânea.

Olhem ao redor e percebam: neste início de século as artes plásticas, a fotografia, o cinema, a moda, o design de interiores, os brinquedos, os museus e até os muros das cidades fazem reverência à ilustração!

19.7.07

Corte fora a sua cabeça!


Essa é do meu mestre, o ilustrador Marshall Arisman:

" When illustrators get creatively stuck I offer the advice given to me by writer friends: cut your head off and start working with your hands!"

"Quando ilustradores se encontram criativamente bloqueados eu ofereço o conselho que recebi dos meus amigos escritores: corte fora a sua cabeca e começe a trabalhar com as mãos!"

Clique no título, sit back and relax.

Abordagem profissional a uma lenda-viva


Essa quem me contou foi o ilustrador Mirko Ilic, amigo do Milton Glaser, fundador do histórico Push Pin Studios e designer gráfico de fama internacional.

O designer liga para o "gentleman" Glaser para orçar um projeto de cartaz. Sem ter a menor noção de que fala com um profissional que é uma lenda-viva nas artes gráficas, o jovem dá início à sua abordagem profissional.

- "Mr. Glaser, queremos contratá-lo para fazer um cartaz, etc e tal... Quanto o Sr, cobra?"

- "Entre 10 e 20 mil"

- "Whoa! Tudo isso? Será que podemos chegar a um meio-termo? Pense bem, afinal um cartaz terá sua ilustração bem grande, ficará exposto em vários locais de circulação onde muita gente vai poder vê-lo..."

Silêncio do outro lado da linha.

_ "Isso sem contar na divulgação do seu nome, Mr Glaser. Será que conversando podemos chegar a um valor mais em conta, dentro do nosso orçamento?"

_ "Fuck you" , disse o gentleman Milton Glaser antes de bater o telefone.

8.7.07

Maravilha



O nosso Cristo Redentor ficou na terceira posição no concurso das sete maravilhas do mundo, atrás apenas da Grande Muralha da China e das ruínas de Petra, na Jordânia.

Enquanto isso, lá embaixo, longe das nuvens do Corcovado...

6.7.07

Diário Gráfico no Recife





Após uma semana de intensas atividades no Recife estou de volta. Como dizem por lá, a oficina do Diário Gráfico foi MASSA!


36 pessoas trabalhando intensamente por 3 dias, espalhando-se para fora das instalações do centro de Design e invadindo o tablado da festa junina montada no pátio de São Pedro.

Diversas novidades foram incorporadas ao programa itinerante da oficina, dentre elas o sorteio dos 5 cadernos confeccionados a partir do material produzido por todos os participantes. Os cadernos vão rodar na mão de todos até chegarem aos seus respectivos donos (caso estes tenham sorte)

Tivemos no grupo profissionais de design e ilustração, professores, universitários e artistas plásticos. Até umas crianças se infiltraram na nossa oficina! Fiquei sabendo depois que os seguranças do pátio só não nos proibiram de trabalhar ali porque eu estava vestido com uma camisa onde se lia PREFEITURA. Na verdade, esta blusa laranja é o uniforme oficial da Comlurb do Rio, que eu uso como roupa de trabalho (ao invés de frescuras de avental).

No último dia de oficina, já caía a tarde quando chegávamos na fase final de costura dos cadernos. Um trio de artistas de teatro se maquiava enquanto lá fora o forró junino tocava no mais alto volume. Ninguém me arrastou pra tomar cachaça nem arrastar pé, o que é uma grande lástima em se tratando de São João em Pernambuco.

KABUM - Uma escola de sonhos



Além do trabalho realizado nos 3 dias no Centro de Design do Recife, tive a alegria de levar o Diário Gráfico também para a escola KABUM, um projeto social financiado pela OI com assessoria do designer Gringo Cardia, e totalmente voltado para jovens de baixa renda. O convite partiu do João Lin, editor da revista em quadrinhos Ragu e também a Domínio Público. É ele quem cuida dos assuntos de design gráfico na Kabum.
Em apenas uma manhã, projetamos no datashow 100 imagens, e logo depois partimos para o ataque com tintas, pincéis, stencils e latas de spray etc. Pintamos, colamos e imprimimos imagens sobre as folhas coloridas e depois as cortamos, dobramos, costuramos e finalmente fizemos um mega cadernão que vai passar de mão em mão até finalmente incorporar-se ao acervo da escola.


A Kabum é sensacional. Poucas vezes tive o privilégio de trabalhar em um local com estrutura tão privilegiada.

A Gente Boa do Recife (links de gente que faz!)

Em Recife existe o Centro de Design do Recife, dirigido pelo Raul Kawamura (que presidiu a Associação de Designers de Pernambuco até este mês), com o auxílio luxuoso de Renata Galvão e Flávia Lira. A associação de lá realiza o Salão de Design de Pernambuco, que edita um catálogo capa dura porreta. Recife é terra de gente que faz. Alô Rio, alô Brasil, acorda gente!

Divulgo aqui também um link para o flick do Damião, ilustrador, designer, cronista, e fotógrafo que vendeu a alma para a Lomo. Veja não somente as fotos da oficina que aconteceu no Centro de Formação em Artes Visuais, no Pátio de São Pedro, centro do Recife, mas principalmente as fotos do seu acervo pessoal.
http://www.flickr.com/photos/damiaosantana/sets/72157600556263873/
Sua mulher Fátima "Finizola, é designer e também a responsável pelas fantásticas criações "Toy art" que você pode ver em http://www.flickr.com/photos/fafilete/
Tivemos também a presença do Sebba, um dos editores da revista Boca, que trilha os passos experimentais da Rojo, revista de Barcelona. Vejam a Boca em http://www.overmundo.com.br/overblog/uma-revista-sem-palavras
O Sebba, além de ser o maior designer do Recife (2,02 m), é também percussionista da banda Negroove (que tem um bom nome!).
Tem muito mais gente boa por lá, basta chegar.

Calígrafos


O processo de levar meus cursos para outras cidades do Brasil sempre começa com a participação ativa de algumas pessoas-chave nestes locais. São eles que ficam responsáveis pela divulgação, convênios com universidades ou escolas, patrocínios, e finalmente formar um grupo de interessados nos cursos.

O convite para o Recife partiu do Matheus Barbosa, estudante de design, calígrafo (fã do meu cunhado Yomar Augusto cujo link está no título) e tipógrafo cearense porreta. Foi ele quem fechou o círculo com o pessoal do Centro de Design do Recife, que por sua vez abraçou a idéia. O Matheus me levou a um lugar muito especial em Olinda chamado "A Casa de Noca". Lá eu comi a melhor macaxeira com carne de sol de todo o sistema solar. Visitantes de Olinda: é fundamental conhecer a Casa de Noca!
Olinda é também a terra da minha querida colega ilustradora Rosinha Campos.

PS>: Matheus é esse cara aí fazendo lambança com a lata de tinta spray. O cara me contou que não usa cama pra dormir, só rede. Deve ter sangue caboclo!

São João no Agreste Pernambucano



Após 3 dias de trabalho nas oficinas, parti sem aperreios para o Agreste pernambucano para conhecer a famosa festa de São João. Antes de chegar a Caruaru, fiz uma parada básica e necessária no atelier de Cordel dos filhos do lendário J.Borges.


Lá comprei de J. Miguel e Ivan Borges diversas matrizes de xilo (sim, matrizes!) por 5 e 10 reais (veja na foto: sob as mãos dele estão as que eu trouxe comigo), e depois não resisti e fiz um lance na própria caixa de ferramentas do cordelista, todinha xilografada em grafismos de cordel. Agora meus tubinhos de aquarela têm casa nova.


Depois, já em Caruaru, fui conhecer o Alto do Moura, lugar auto-entitulado "O Maior Centro de Artes Figurativas das Américas" e também centro do artesanato em barro (veio de lá o Mestre Vitalino).
Lembrou-me o velho samba: "...e o Mestre Vitalino, molda em barro o destino do povo tão sofredor..."

Cuidado com os tubarões


Em Recife parece que todo mundo tem uma história de tubarão pra contar...
Na oficina do Diário Gráfico um cara me disse que perdeu um amigo devorado pelos tubas. Imagine a tristeza da mãe do pobre sujeito...
Peguei um taxi um outro dia e, enquanto trafegávamos em frente à praia de Boa Viagem, puxei o velho assunto com o piloto.
"Praia boa pra dar um mergulhinho, né irmão?"

Daí a concidência: o taxista me contou que era também surfista e, um dia sentadinho sossegado lá no outside, esperando a série entrar, sentiu a abocanhada no pé direito. Com vários chutes de canhota ele livrou-se do peixe e voltou remando para a areia com o pé todo esgarçaralhado.
Tive que inventar uma palavra para descrever um pé que precisou de 60 pontos para voltar a ser pé.

Então contei para ele dos 23 pontos que eu tenho na palma da mão direita (a que eu uso pra desenhar!) por causa de uma esporada de arraia, quando eu tinha 13 anos e começava a me aventurar na caça submarina. Bem, mas isso é outro causo.

"E então, você desistiu de surfar?", perguntei.
"Quem desiste de surfar é porque nunca surfou", ele respondeu.

Acho que já li isso em algum adesivo de surfwear.

Conserta-se gadgets de todos os tipos



O tiozinho gente fina aí montou uma oficina de gadgets eletrônicos em plena feira no Recife.

Quem resiste à maresia?


Em frente à praia de Boa Viagem um sujeito montou a melhor estratégia de marketing para vender cofres ultra resistentes à maresia.
Em geral quando o cara se muda para um apartamento perto da praia acha que chegou ao topo da cadeia alimentar. "Agora estou morando bem", gabam-se.
Tenho um amigo que mudou-se hà pouco para Ipanema, a apenas dois quarteirões do posto 9.
O vento salgado que circula em seu apartamento já ferrou com os eletrodomésticos e, recentemente, queimou a placa-mãe do seu PC.

Um outro tempo, nem passado, nem presente, nem futuro


Ir a Recife e não visitar o universo de Francisco Brennand é o mesmo que ir a Florença e não ver nada do Michelangelo.
Olhem bem, não vou nem entrar na besteira de "guardar as devidas proporções". Considero-o o mais genial artista brasileiro vivo.
Lá em Minas Gerais conversei sobre isso com o Lourenço Mutarelli durante a FIQ de 2007 (a que trouxe o Gary Panter) e ele concordou de imediato. Então se a minha opinião não vale nada, considere a daquele que é um dos mais originais quadrinistas brasileiros.
Quem pensa que Brennand é somente o exótico personagem de barbas brancas afeito à esculturas cerâmicas de formas fálicas, revela-se um completo desconhecedor do mínimo sobre sua obra.
É nos desenhos e pinturas que Brennand se mostra um artista excepcional. Tenho aqui um livro com seus desenhos e nele há uma série de trabalhos maravilhosos onde ele criou novas composições sobre desenhos muitos antigos, deixando vestígios do original transparecerem sobre as novas camadas. Não deixe de ver estes trabalhos.
Pois então, aproveitando a viagem ao Recife voltei lá na Cerâmica Brennand para visitar sua "menagerie" de criaturas. Foi Rosa, minha mulher, que bem definiu aquilo que vimos:
"Aqui tem-se a sensação de estar em outro tempo, nem passado, nem presente, nem futuro. Talvez todos estes tempos de uma vez só e ainda por cima em outro planeta."

Quantos gênios você já encontrou na vida?

Para alguns essa pode ser a medida de quantos encontros especiais a vida lhe concedeu.
Pessoas geniais e gênios são para mim tipos distintos.

Os primeiros têm a seu favor aquela inquietação criativa (chamem isso de curiosidade produtiva), e também a frequência com que acertam o alvo de suas idéias, objetivos, concepções. Há neles uma humanidade quase igual à da maioria das pessoas, porém diferenciam-se pelo talento e aptidões singulares, ambos lapidados com afinco ao longo de suas vidas. Pessoas geniais são resultado de um certo esforço pessoal, acredito.

Já os gênios guardam todas as características anteriores e um pouco além. Por mais pé no chão que sejam, por mais que transitem no nosso plano de efemeridades, possuem uma irradiação diferente, uma cabeça e um coração estelar, como se houvesse uma centelha a dar cor diferente às suas almas.
É preciso estar na presenca do gênio para reconhecê-lo.
Estas definições são minhas, e perdoem as pretensões literárias. Até hoje só conheci dois gênios e, portanto, não tenho muita experiência para descrever o tipo.

Encontro com Francisco Brennand



Francisco Brennand, ceramista, pintor e desenhista é um desses gênios que descrevi antes. Conheci-o em 2005 quando participei do juri do Festival de Humor e Histórias em Quadrinhos do Recife.



Foi assim:
O festival disponibilizou uma van para levar todos os artistas (brasileiros e gringos) para conhecer as coisas boas do Recife, dentre elas, logicamente, a cerâmica Brennand (da qual eu, ignorante, nunca ouvira falar). A motorista da van era uma pessoa do tipo "despachada" (como dizemos aqui no Rio), e me disse que poderia tentar achar o recluso artista e trazê-lo para vir falar conosco.

Quando Brennand chegou e apresentou-se, expliquei à ele que éramos um grupo de artistas gráficos, e que trabalhávamos para o suporte da página impressa, jornais, revistas e livros. Emendamos então numa breve conversa introdutória sobre arte , desenho, suportes efêmeros como o papel e eternos como a cerâmica. Estaria ali na questão da durabilidade do suporte o cerne da hierarquia nas artes visuais? Ele dizia uma ou outra palavra em francês para o Jano, e eu traduzia tudo para o inglês para os outros convidados.



Perguntei-lhe sobre o significado daquele cenário surreal de colunas, formas curvilíneas, relevos e esculturas eróticas, e aqueles animais no mínimo curiosos.
Brennand contou que o conjunto nascera dos escombros da antiga fábrica de telhas de sua família. Após alguns anos morando na França ele retornou ao Brasil em 1971 para encontrar ali o velho galpão de 1917 em destroços. Pediu então aos funcionários que limpassem a área dos escombros e de lá restavam de pé somente as fortes colunas de tijolos maçiços. Visualizou naquelas colunas os pedestais para esculturas que serviriam de guardiões para um "templo profano" onde se celebrariam os mitos de criação. Logo tratou de povoar aquele espaço com figuras cerâmicas que simbolizassem a vida, a fecundidade, a transformação, o mistério. São falos, vaginas, ovos, sapos, aves, placas com frases de filósofos, espelhos dágua e toda uma fantasmagoria pessoal.



Eu ia traduzindo sua fala para os gringos à medida em que caminhávamos. O velho contou que aquele imaginário nada tinha de erótico, como diziam as màs línguas a seu respeito. "Para falar da vida, é preciso sobretudo falar do sexo, da reprodução", explicou.

Ao passar sob uma abóbada de onde pendia um fio em cuja extremidade havia um ovo suspenso, notei que os convidados estrangeiros do festival já haviam se dispersado, atraídos pelas curiosas esculturas expostas em um galpão à esquerda. O velho Brennand prosseguia sua explanação e ao notar que eu era o único que restara, convidou-me para caminhar até a Accademia, a galeria que abriga suas pinturas e desenhos. Durante todo o percurso dei-me conta do acaso que havia me trazido até aquele momento. Aquela era uma aula master tête-a-tête com Francisco Brennand.

Na Accademia, cada obra inspirava um causo, adornado pela voz literata que brotava das longas barbas brancas do artista.
Ao ver uma das pinturas, comentei que havia ali uma semelhança com o universo de Balthus. Vi a surpresa estampar-se no rosto de Brennand.
"Ah rapaz, agora você bateu em uma porta certa!"
O velho pôs-se então a exaltar Balthus, e contou sobre os anos em que viveu Paris e o conheceu. Nesta época, teve a oportunidade de conhecer outros artistas importantes também.
Em Paris, Brennand era amigo de um jovem mexicano, incumbido pelo pai milionário de comprar a obra de "qualquer pintor famoso", a título de investimento. Assim os dois jovens latinos foram parar no ateliê de Braque. O rapaz mexicano adquiriu duas obras do cubista.

Fiquei fascinado com a série de trabalhos sobre Chapeuzinho Vermelho e também com os pastéis onde Brennand retrabalhou desenhos antigos de peixes, criando retratos de pessoas zoomórficas.
Aquele foi um encontro com um gênio, e eu jamais vou me esquecer.

4.6.07

Os inteligentes sabem Física


Aos que gostam de ler, recomendo uma visita ao blog do meu colega de colégio de São Bento, o Marcos Faria. É dele a frase "a humanidade é o sketchbook de Deus", postada no assunto "Diários Gráficos: uma prática cotidiana" em Abril.

Em meados dos anos 80, estudávamos juntos no segundo grau e fazíamos textos e imagens para o jornal do grêmio do São Bento. Como havia poucos colaboradores para o jornal, o Marcos escrevia com diversos pseudônimos: Vinícius Silva, M. Faria, e ocasionalmente, Bode, alcunha que ganhou devido a sua nada rala barba. (olha só...gostei da cacofonia destas 3 palavrinhas juntas).

Eu desenhava tudo, desde as crônicas, as propagandas, os cartazes que anunciavam o Sarau, e também camisetas com caricaturas de professores, caverinhas do Iron Maiden nas calças Jeans dos colegas, os tampos de fórmica das mesas... Desenhava tanto que levei bomba no primeiro ano.

Guardo grandes lembranças deste tempo em que os assuntos mais interessantes eram bandas de rock'n roll, rock progressivo, mulheres e o futebol (a ordem de importância era quase essa mesma). Hoje quase não ouço barulho ou zumbido, e futebol não passa nem perto da minha lista de paixões. Gosto da minha mulher, claro.

O Bode parece que ainda gosta de futebol, como se percebe ao clicar no título deste post.

Uma lembrança curiosa foi o dia em que todos os alunos fizeram uma vaquinha para levar o Bolinho a um puteiro. Até o Waldemir, professor de matemática contribuiu com 10 reais. Durante o recreio o plano vazou e o Bolinho... vazou também. Sumiu uma semana, e quando apareceu disse que estava doente.

Lembro do dia em que um temido professor de física, o velho bruxo Loureiro, exaltou em sala de aula as qualidades de um certo aluno "que sabia muito de física e matemática, e por isso era um dos mais inteligentes da escola". Eu pedi licença e levantei o dedo para discordar dele, porque "ninguém escrevia tão bem quanto o Bode, para mim o cara mais inteligente da escola". Meus colegas ficaram boquiabertos com aquela audácia em questionar o gutural Loureiro. O Bode quis se esconder no escaninho embaixo da carteira. E até eu fiquei impressionado comigo mesmo ao ver minha mão levantada e minha boca pedindo licença para discordar. Enfim, arroubos de juventude...

As notas do bode eram tão vermelhas quanto as minhas. Aliás, eu era péssimo, ruiiiim mesmo, mas... sabia desenhar! Desenhava inclusive as minhas provas de física, com aqueles problemas cabeludos que começavam com enunciados literários do tipo "...do telhado de um prédio, um corpo é lançado verticalmente para o espaço na velocidade x, calcule a ...", "Dois trens estão no mesmo trilho em sentidos contrários nas velocidades x e y, e vão se chocar no ponto...".

Aquilo implorava por desenhos!
Em um ano eu tirei sete zeros em física. Mas - questão de honra - minhas provas nunca foram entregues em branco; eram sempre cheias de desenhos.

Aquele aluno elogiado pelo Loureiro "porque que sabia tudo sobre física" fez universidade de dança, e hoje é um renomado diretor de um "Centro de Artes do Espetáculo" de uma universidade na Bahia. Hoje o Bode é jornalista de futebol (ficou quase 10 anos no Jornal dos Sports) e também escritor. Eu sou um ilustrador, professor de artes visuais e também um imbecil que perde tempo escrevendo blog para meia dúzia de manés.
Mas isso não há de durar para sempre.

(a imagem deste post é uma combinação de um desenho que fiz aos 7 anos, e um spread do meu sketchbook "Outlawed")

31.5.07

Top 10 da Revista How



Durante o mês de junho o meu site estará listado no portal da revista de design "How" como um dos "Top 10" do mês.

Fundada em 1985, a HOW Magazine é uma renomada publicação americana voltada para designers gráficos, e traz sempre importantes informações profissionais como entrevistas, portfolios, dicas de auto-promoção, competições (design e ilustração), negócios, novas tecnologias e processos.

O site deles já está nos meus bookmarks. É excelente!

Quer ter o seu site listado na How? Não tem mistério. Vai lá no link (título do post) e preencha a ficha. Se eles gostarem, melhor pra você.

27.5.07

Blogs aqui e lá


Há um certo tempo o blog Drawn publicou uma resenha sobre o meu trabalho (para ver clique no título). Deu uma ótima repercussão e a visitação foi tão intensa que o meu site foi "derrubado" umas 4 vezes (na época eu havia acabado de colocá-lo no ar e o plano do provedor tinha uma expectativa de visitações bem mais humilde).
Vale destacar que, no ano passado, este blog canadense foi listado pela revista Time como um dos 50 melhores lugares para se visitar na internet. E é mesmo, principalmente se você gosta de ilustração.

Aqui no Brasil, o melhor blog que eu conheço é o Widoníd Another Hiro, editado pelo colega ilustrador Hiro Kawahara. Os assuntos são sempre muito interessantes, e com o toque do texto do Hiro, sempre termino de ler os posts com um sorriso na boca. Vai lá em http://blog.hiro.art.br/

25.5.07

"Toda ponte deve ter princípio e fim"


Estou aqui assistindo à entrevista do Ziraldo no Jô Soares e, enquanto o comercial entra, escrevo rapidamente estas linhas.
Considero-o o maior artista gráfico brasileiro vivo. Aliás, são bem poucos os "gênios da raça" na minha lista dos vivos. Muito mais extensa é a lista dos que partiram para o andar de cima... E sem pensar muito coloco o J. Carlos no topo.
Concordo com o Jô quando diz que o Ziraldo está mesmo cada dia mais preto (ou segundo o próprio, cada vez mais com cara de indiano) e, aos 75 anos, o artista não dá o menor sinal de cansaço. É quase o dobro da minha idade, e, ao vê-lo, aprendo que preciso parar de reclamar e trabalhar mais, muito mais.
Dentre outros assuntos, Ziraldo foi lá pra falar do livro "Aspite", seu mais novo lançamento. O nome vem de "assessor de palpites", que é mais uma habilidade da qual ele se gaba. Ali ele reuniu toda sorte de palpites que deu ao longo da vida, alguns inclusive levados adiante, como a idéia de se colocar vitamina em macarrão. Disse o Ziraldo que a inclusão de macarrão na cesta básica foi também um palpite dele, depois de ver uma mendiga fervendo lascas de papelão numa lata d’água, para, dali, preparar um caldo que ela daria de comer aos filhos. Só no Brasil...
Um outro palpite do Ziraldo foi substituir a carne bovina por carne de peixe. "Porque peixe não morre afogado, não atola, não pega aftosa – e, ainda por cima, pode ser alimentado com merda." Um dos palpites que os dois – Jô e Ziraldo – elaboraram ali no meio da entrevista foi: "toda ponte deve ter princípio e fim."
Se antes elas eram uma metáfora para o encontro, para a aproximação, agora as pontes representam a indigência moral dos políticos brasileiros. A construção de pontes tornou-se o maior símbolo para a rapina e a bandalheira dos nossos homens públicos. Cambada de filhos-da-puta.
Certa vez ilustrei uma crônica genial do Moacyr Scliar sobre uma ponte. Reproduzo-a aqui.

20.5.07

Union Square, setembro de 2001



Vi com meus próprios olhos um evento que dividiu a história contemporânea entre o antes e o depois.
Esta é para mim a definição mais sucinta do que foi o 11 de setembro.
Às 10 pras 9 da manhã, um telefonema do Brasil pediu que eu ligasse a TV imediatamente.
Lembro-me que, ao ver aquele imenso buraco a arder em chamas, os primeiros pensamentos que me vieram à cabeça foram:
"Bombeiro nenhum vai conseguir apagar essa fornalha...só um tolo pode crer que um avião bateu ali por acidente"
Então 13 minutos depois minhas suspeitas se confirmaram: um outro avião abocanhava vorazmente a estrutura da segunda torre.
Estavam abertos os portais do apocalipse.
Acompanhei tudo pela minha pequena TV durante exatos 56 minutos, quando então a tela encheu-se de chuviscos, deixando-me apenas um confuso sinal de áudio. Ainda assim pude compreender sob a camada de ruídos o locutor de TV dizendo:
"The south tower is gone!"
Antenas de TV estavam situadas exatamente no topo do prédio que havia caído. Por isso meu aparelho não podia mais mostrar o que acontecia a apenas alguns quilômetros de onde eu estava.
Telefonei para o meu vizinho Steff, que morava no décimo quinto andar e tinha uma vista privilegiada da ponta sul de Manhattan.
"Steff, minha TV perdeu o sinal, mas eu acho que ouvi falarem que a torre caiu...você consegue ver alguma coisa?"
"Sim, tudo. Venha para cá logo pois a torre que restou não parece que vai se segurar por muito tempo"
Da janela do apartamento do Steff, eu podia acompanhar o desdobramento dos eventos com meus próprios olhos. Ainda assim olhava a todo momento para a enorme TV, cuja imagem provida por cabo me permitia uma visão perfeita do inferno que habitava aquela imensa nuvem de pó que havia engolfado a ponta de Manhattan.
Para crer no que via acontecer da janela eu precisava olhar a todo momento para a TV. Que ironia.
No dia seguinte a cidade era um deserto. Mas pouco a pouco as pessoas começaram a se reunir na praça Union Square, que logo se tornou um verdadeiro santuário de orações, choro, ranger de dentes e catarse coletiva. Artistas trouxeram papéis, canetas e tintas, e quem ali chegava tratava de deixar registrado seu manifesto, oração, ou desenho.

Haviam muitas crianças e também monges budistas, tocadores de gaitas de fole (que som triste e belo tem aquele instrumento), velhos e jovens, e também uma estranha energia no ar, algo que quase se podia pegar com a mão.
Fiz alguns desenhos na Union Square naquele dia. Mas tanto os desenhos quantos as fotos registraram apenas uma pálida idéia do que aconteceu ali.


19.5.07

Mergulho


Um mergulho. Reminiscências de um tempo de feridas abertas.

Ventania no Trigal



Encontrei este aqui nos meus backups de 7 anos atrás. Aquele chapéu foi herança do meu avô Altamiro.

Poetas, artistas e o seu trabalho


Há exatamente duas horas atrás tomei contato com o texto da poeta Wislawa Szymborska, polonesa e ganhadora do Nobel de literatura em 1996. Compartilho aqui trechos do seu discurso na solenidade do Nobel.
Troque-se a palavra "poetas" por "artistas" e estamos diante de verdades simples como a água que se bebe na concha das mãos. (ôpa, parafraseei um Mário Quintana aqui).

"...Ainda não faz tanto tempo, os poetas se esforçavam para nos escandalizar com suas roupas extravagantes e seu comportamento excêntrico. Tudo isso era só para encher os olhos do público. Sempre chegava a hora em que os poetas tinham de fechar a porta atrás de si, despir suas capas, seus penduricalhos e outras parafernálias poéticas e enfrentar - em silêncio, com paciência, à espera de si mesmos - a folha de papel ainda em branco. Pois, no final, é isso o que de fato conta."

" ...A inspiração não é um privilégio exclusivo de poetas e artistas. Existe, existiu, existirá sempre certo grupo de pessoas a quem a inspiração visita. É formada por todos aqueles que conscientemente escolheram a sua vocação, e fazem seu trabalho com amor e imaginação. Podem incluir médicos, professores, jardineiros - eu poderia fazer uma lista de mais de cem profissões. Seu trabalho se torna uma aventura constante, enquanto forem capazes de continuar a descobrir nele novos desafios. Dificuldades e reveses nunca sufocam a sua curiosidade. Um enxame de questões novas emerge de cada problema que eles solucionam.
Não existem muitas pessoas assim. A maioria dos habitantes da Terra trabalha para ganhar a vida. Trabalham porque têm de trabalhar. Não escolhem este ou aquele trabalho por paixão; as circunstâncias de suas vidas fizeram a escolha por eles. Trabalho sem amor, trabalho maçante, trabalho cujo mérito consiste no fato de que outros nem isso têm - aí está uma das mais penosas desventuras humanas. "
"Assim, embora eu possa recusar aos poetas o monopólio da inspiração, ainda os situo num grupo seleto de favoritos da Fortuna."

17.5.07

Cristo Maravilha



Aqui vai um desenho que fiz na madrugada de ontem (do mesmo ângulo que vemos do ateliê Marimbondo). Fim de tarde pesadamente nublado e o Redentor abençoando esta cidade que teima em ser maravilhosa...

Foi em 1859 que primeiro surgiu a idéia de construir uma estátua no Corcovado. Diante daquele pico o padre Pedro Maria Boss imaginou que ali se poderia erigir uma enorme estátua de Cristo e então pediu ajuda à Princesa Isabel para erguer o monumento. A princesa, que não tinha de onde tirar recursos para tal extravagância, nada pôde fazer.

A idéia só voltou à tona em 1921, para marcar a comemoração do Centenário da Independência do Brasil, que aconteceria no ano seguinte. A intenção agora era fazer um monumento em bronze, para ser colocado no alto do Pão de Açúcar.

Da primeira reunião oficial destinada a discutir o projeto e o local para a edificação do monumento, surgiu a primeira dúvida: onde assentar a estátua? No Corcovado, no Pão de Açúcar ou no Morro de Santo Antônio? Venceu a opção pelo maior dos pedestais. E assim a pedra fundamental da construção do monumento foi lançada no dia 4 de abril de 1922.

Diferente do que muitos pensavam (inclusive eu), o Cristo Redentor não foi um presente dos Franceses, mas o resultado do trabalho do engenheiro Heitor da Silva Costa (na foto com a maquete da estátua).

Foi na Europa, que Heitor escolheu o arquiteto Paul Landowsky para desenvolver o projeto, executar a maquete definitiva do Cristo e estudar problemas de construção e de base. Em 1928, uma comissão de técnicos examinou estudos, projetos e orçamentos. Vários materiais foram cogitados para o revestimento da estátua, mas por fim foi escolhida a pedra-sabão, que embora seja um material fraco, é extremamente resistente ao tempo e não deforma nem racha com as variações de temperatura. O próprio Morro do Corcovado forneceu toda a pedra sabão necessária para a obra.

Em 12 de outubro de 2006 o Cristo completou 75 anos, transcendendo o simbolismo religioso para se tornar um ícone da cidade. Católicos ou não, todos se rendem à grandiosidade da enorme estátua art deco que reverencia o Rio de Janeiro e é por ele reverenciado.

No mesmo ano a fundação New 7 Wonders estabeleceu um projeto para escolher as novas sete maravilhas do mundo contemporâneo. Além do nosso Cristo fazem parte da lista os "Moai" (as grandes estátuas da Ilha de Páscoa), a grande muralha da China e Machu Picchu.

Em 1º de Janeiro o concurso para eleger as novas sete maravilhas foi lançado, com vinte e uma "maravilhas" pré-selecionadas. O concurso acaba no dia 7 de setembro de 2007 e metade dos fundos arrecadados no projeto serão destinados à restauração de patrimônios em risco ao redor do mundo.

Clicando no link podemos votar no Cristo, além de outras 6 maravilhas. Mas o Redentor é o único brazuca da lista!
Eu votei no Cristo, em Machu Picchu, nos Moais, em Petra, no Taj Mahal, na Muralha da China, e na Acrópole da Grécia. Todos à exceção do Cristo foram feitos há trocentos anos atrás, fato que, para mim, os torna ainda mais maravilhosos.

Alguns detalhes sobre o Cristo:

Localização - Cume do Morro do Corcovado, 710 m acima do nível do mar
Altura da estátua - 30m
Altura do pedestal - 8m
Altura da cabeça - 3,75m
Comprimento da mão - 3,20m
Distância entre os extremos dos dedos - 28m
Peso da estátua - 1,145 toneladas
Peso da cabeça - 30 toneladas
Peso de cada mão - 8 toneladas
Peso de cada braço - 57 toneladas
Direitos de exploração de imagem: Mitra Arquiepiscopal do Rio de Janeiro (embora haja disputa com os herdeiros dos envolvidos na concepção da obra).
Melhor citação, referência ou apropriação indébita da sua imagem: Joãzinho Trinta e o carnaval "Ratos e Urubus Larguem minha Fantasia", que trouxe o Cristo empacotado (refêrencia ao artista Christo) com uma faixa dizendo "Mesmo Proibido Olhai Por Nós".

16.5.07

Falando Merda


Este mundo anda muito estranho. É um mata-mata que não acaba. Homens-bombas, tragédias ambientais, ideologias de conveniência, produtos de obsolescência programada, lixo industrial de alta toxicidade, "e-invenções" para nos deixar ainda mais atordoados de informação, e uma infinidade de novidades efêmeras que seguem despejadas às toneladas sobre todos os nossos órgãos sensoriais. É pau, é pedra, é o fim do caminho.

Mas e as artes?
Ufff... voltaram os iconoclastas.
Temos sempre que ouvir um sujeito falar em fim da pintura, fim do objeto artístico, fim da figuração, volta da figuração, como se tudo isso fosse "A" novidade. As artes plásticas só atestam sua própria condição de "a mais perdida e desnorteada de todas as artes". Então é lata de merda pra cá, cubo de esperma pra lá, e tem até artista que dá um tiro no próprio braço e um outro que faz performance suicidando-se de um prédio sobre uma lona estendida na calçada.

Enquanto isso a rapaziada do grafitti, da "Lowbrow art" e do pop surrealismo vão se embrenhando pelas frestas, comendo esse angu de caroço pelas beiradas.

Vá ver o teatro, vá ver a música, vá ver o cinema, a culinária, a moda, qualquer uma das outras artes. Elas inovam, reinventam-se, não picareteiam a si próprias. Parece que o barbante que guiava o caminho para fora do labirinto em que as artes plásticas se meteram foi usado numa instalação que ninguém vai ver (nem o minotauro!).

Nesta vida tudo muda e se transforma. As artes morrem apenas para renascerem diferentes no dia seguinte, no mês seguinte, na década seguinte. Ou não.
(e, que bom que inventaram esse "ou não", rota de fuga que redime a gente de qualquer sandice)

Viram a foto? Aquela belezinha recheada de cocô custou 22.300 libras ao Tate Museum de Londres. Pelo câmbio de hoje cada grama custou o equivalente a 3.054 reais.

Vai, clica lá no título e continue esse assunto que é tão divertido.

A morte da ilustração


Outro dia li uma entrevista de um ilustrador brasileiro em uma revista de design onde ele disse que a "ilustração morreu".
Não me recordo a última vez em que li uma besteira de tamanha magnitude na escala CRAP (para saber o que é CRAP, clique no título).

Por consideração e para evitar pré-julgamentos, decidi escrever um e-mail para ele e perguntar o que era aquilo. O colega até tentou se explicar, mas sua justificativa só fez jus ao velho ditado do brilhante advogado Evandro Lins e Silva, aquele do processo de impeachment contra o Collor:
"Uma defesa mal embasada é errática como o vôo do morcego"

Aquela foi mesmo uma resposta zig-zagueante e confusa, que me fez lembrar também de uma outra frase, se não me engano de Oscar Wilde, que dizia:
"...e desculpe-me por esta carta tão longa, é que não encontrei tempo de escrever uma menor..."

Existe um equívoco, a meu ver, em declarar a morte de uma atividade que está justamente em franca retomada, após um período nebuloso acontecido ali por volta do ano 2000. Mas pior ainda, lamentável e imperdoável, é escrever o obituário da ilustração em uma revista dirigida a designers gráficos, justamente os profissionais que contratam a nós, os ilustradores.

O fato de muitos artistas - eu incluído - estarem ocupadísimos com a demanda por ilustrações é um sintoma de que a atividade continua uma sugadora voraz das nossas horas de vigília. E se alguém morreu nessa história, deve ter sido o Norman Rockwell, o Arthur Rackham, o Al Hirschfeld, e outros ilustradores que alguns por aí devem julgar como exemplares vetustos de uma raça em extinção.
Artistas de sorte foram aqueles. Morreram com seus lápis na mão ( e se Deus quiser, um dia eu também subirei assim ).

Na defesa da tese de que a "ilustração morreu", usou-se o argumento de " a ilustração acabou da forma como era há 15, 20 anos atrás, estando hoje integrada à uma visão global de projeto". E diante da saraivada de críticas, o autor da frase disse que não foi bem interpretado.

Então tá.

Os automóveis acabaram. Não são os mesmos de 15, 20 anos atrás. Precisamos inventar um outro nome para essas coisas que nos levam pra lá e pra cá apoiados sobre pneus.
O mesmo vale para a música. Hoje ela pode ser feita sem instrumentos, uma verdadeira colagem de frases musicais pinçadas de diversas fontes. Dá pra carregar centenas delas no chaveiro. Paramos até de comprar CDs. Mas, que incrível, essa coisa imaterial, com ritmo, harmonia e melodia e que alegra nossa alma e os ouvidos, ainda se chama música!

Conheci um artista (?) que me disse que a pintura havia morrido, que não havia mais nada a se dizer com tintas e pincéis. Ele, que só sabia o segredo da mistura de terebentina com óleo de linhaça, já não sabia mais O QUE pintar, e por isso bradava:
"...todo mundo já fez figuras humanas, retratos, paisagens, o grotesco, o sublime, abstrações, geometrias, esgotamos as possibilidades do suporte...Acabou-se, a pintura morreu!"

Morreu para ele!

(a ilustração deste post é para um livro ainda não-publicado. Representa o Kadish, uma oração judaica associada aos rituais de luto)