6.7.07

Diário Gráfico no Recife





Após uma semana de intensas atividades no Recife estou de volta. Como dizem por lá, a oficina do Diário Gráfico foi MASSA!


36 pessoas trabalhando intensamente por 3 dias, espalhando-se para fora das instalações do centro de Design e invadindo o tablado da festa junina montada no pátio de São Pedro.

Diversas novidades foram incorporadas ao programa itinerante da oficina, dentre elas o sorteio dos 5 cadernos confeccionados a partir do material produzido por todos os participantes. Os cadernos vão rodar na mão de todos até chegarem aos seus respectivos donos (caso estes tenham sorte)

Tivemos no grupo profissionais de design e ilustração, professores, universitários e artistas plásticos. Até umas crianças se infiltraram na nossa oficina! Fiquei sabendo depois que os seguranças do pátio só não nos proibiram de trabalhar ali porque eu estava vestido com uma camisa onde se lia PREFEITURA. Na verdade, esta blusa laranja é o uniforme oficial da Comlurb do Rio, que eu uso como roupa de trabalho (ao invés de frescuras de avental).

No último dia de oficina, já caía a tarde quando chegávamos na fase final de costura dos cadernos. Um trio de artistas de teatro se maquiava enquanto lá fora o forró junino tocava no mais alto volume. Ninguém me arrastou pra tomar cachaça nem arrastar pé, o que é uma grande lástima em se tratando de São João em Pernambuco.

KABUM - Uma escola de sonhos



Além do trabalho realizado nos 3 dias no Centro de Design do Recife, tive a alegria de levar o Diário Gráfico também para a escola KABUM, um projeto social financiado pela OI com assessoria do designer Gringo Cardia, e totalmente voltado para jovens de baixa renda. O convite partiu do João Lin, editor da revista em quadrinhos Ragu e também a Domínio Público. É ele quem cuida dos assuntos de design gráfico na Kabum.
Em apenas uma manhã, projetamos no datashow 100 imagens, e logo depois partimos para o ataque com tintas, pincéis, stencils e latas de spray etc. Pintamos, colamos e imprimimos imagens sobre as folhas coloridas e depois as cortamos, dobramos, costuramos e finalmente fizemos um mega cadernão que vai passar de mão em mão até finalmente incorporar-se ao acervo da escola.


A Kabum é sensacional. Poucas vezes tive o privilégio de trabalhar em um local com estrutura tão privilegiada.

A Gente Boa do Recife (links de gente que faz!)

Em Recife existe o Centro de Design do Recife, dirigido pelo Raul Kawamura (que presidiu a Associação de Designers de Pernambuco até este mês), com o auxílio luxuoso de Renata Galvão e Flávia Lira. A associação de lá realiza o Salão de Design de Pernambuco, que edita um catálogo capa dura porreta. Recife é terra de gente que faz. Alô Rio, alô Brasil, acorda gente!

Divulgo aqui também um link para o flick do Damião, ilustrador, designer, cronista, e fotógrafo que vendeu a alma para a Lomo. Veja não somente as fotos da oficina que aconteceu no Centro de Formação em Artes Visuais, no Pátio de São Pedro, centro do Recife, mas principalmente as fotos do seu acervo pessoal.
http://www.flickr.com/photos/damiaosantana/sets/72157600556263873/
Sua mulher Fátima "Finizola, é designer e também a responsável pelas fantásticas criações "Toy art" que você pode ver em http://www.flickr.com/photos/fafilete/
Tivemos também a presença do Sebba, um dos editores da revista Boca, que trilha os passos experimentais da Rojo, revista de Barcelona. Vejam a Boca em http://www.overmundo.com.br/overblog/uma-revista-sem-palavras
O Sebba, além de ser o maior designer do Recife (2,02 m), é também percussionista da banda Negroove (que tem um bom nome!).
Tem muito mais gente boa por lá, basta chegar.

Calígrafos


O processo de levar meus cursos para outras cidades do Brasil sempre começa com a participação ativa de algumas pessoas-chave nestes locais. São eles que ficam responsáveis pela divulgação, convênios com universidades ou escolas, patrocínios, e finalmente formar um grupo de interessados nos cursos.

O convite para o Recife partiu do Matheus Barbosa, estudante de design, calígrafo (fã do meu cunhado Yomar Augusto cujo link está no título) e tipógrafo cearense porreta. Foi ele quem fechou o círculo com o pessoal do Centro de Design do Recife, que por sua vez abraçou a idéia. O Matheus me levou a um lugar muito especial em Olinda chamado "A Casa de Noca". Lá eu comi a melhor macaxeira com carne de sol de todo o sistema solar. Visitantes de Olinda: é fundamental conhecer a Casa de Noca!
Olinda é também a terra da minha querida colega ilustradora Rosinha Campos.

PS>: Matheus é esse cara aí fazendo lambança com a lata de tinta spray. O cara me contou que não usa cama pra dormir, só rede. Deve ter sangue caboclo!

São João no Agreste Pernambucano



Após 3 dias de trabalho nas oficinas, parti sem aperreios para o Agreste pernambucano para conhecer a famosa festa de São João. Antes de chegar a Caruaru, fiz uma parada básica e necessária no atelier de Cordel dos filhos do lendário J.Borges.


Lá comprei de J. Miguel e Ivan Borges diversas matrizes de xilo (sim, matrizes!) por 5 e 10 reais (veja na foto: sob as mãos dele estão as que eu trouxe comigo), e depois não resisti e fiz um lance na própria caixa de ferramentas do cordelista, todinha xilografada em grafismos de cordel. Agora meus tubinhos de aquarela têm casa nova.


Depois, já em Caruaru, fui conhecer o Alto do Moura, lugar auto-entitulado "O Maior Centro de Artes Figurativas das Américas" e também centro do artesanato em barro (veio de lá o Mestre Vitalino).
Lembrou-me o velho samba: "...e o Mestre Vitalino, molda em barro o destino do povo tão sofredor..."

Cuidado com os tubarões


Em Recife parece que todo mundo tem uma história de tubarão pra contar...
Na oficina do Diário Gráfico um cara me disse que perdeu um amigo devorado pelos tubas. Imagine a tristeza da mãe do pobre sujeito...
Peguei um taxi um outro dia e, enquanto trafegávamos em frente à praia de Boa Viagem, puxei o velho assunto com o piloto.
"Praia boa pra dar um mergulhinho, né irmão?"

Daí a concidência: o taxista me contou que era também surfista e, um dia sentadinho sossegado lá no outside, esperando a série entrar, sentiu a abocanhada no pé direito. Com vários chutes de canhota ele livrou-se do peixe e voltou remando para a areia com o pé todo esgarçaralhado.
Tive que inventar uma palavra para descrever um pé que precisou de 60 pontos para voltar a ser pé.

Então contei para ele dos 23 pontos que eu tenho na palma da mão direita (a que eu uso pra desenhar!) por causa de uma esporada de arraia, quando eu tinha 13 anos e começava a me aventurar na caça submarina. Bem, mas isso é outro causo.

"E então, você desistiu de surfar?", perguntei.
"Quem desiste de surfar é porque nunca surfou", ele respondeu.

Acho que já li isso em algum adesivo de surfwear.

Conserta-se gadgets de todos os tipos



O tiozinho gente fina aí montou uma oficina de gadgets eletrônicos em plena feira no Recife.

Quem resiste à maresia?


Em frente à praia de Boa Viagem um sujeito montou a melhor estratégia de marketing para vender cofres ultra resistentes à maresia.
Em geral quando o cara se muda para um apartamento perto da praia acha que chegou ao topo da cadeia alimentar. "Agora estou morando bem", gabam-se.
Tenho um amigo que mudou-se hà pouco para Ipanema, a apenas dois quarteirões do posto 9.
O vento salgado que circula em seu apartamento já ferrou com os eletrodomésticos e, recentemente, queimou a placa-mãe do seu PC.

Um outro tempo, nem passado, nem presente, nem futuro


Ir a Recife e não visitar o universo de Francisco Brennand é o mesmo que ir a Florença e não ver nada do Michelangelo.
Olhem bem, não vou nem entrar na besteira de "guardar as devidas proporções". Considero-o o mais genial artista brasileiro vivo.
Lá em Minas Gerais conversei sobre isso com o Lourenço Mutarelli durante a FIQ de 2007 (a que trouxe o Gary Panter) e ele concordou de imediato. Então se a minha opinião não vale nada, considere a daquele que é um dos mais originais quadrinistas brasileiros.
Quem pensa que Brennand é somente o exótico personagem de barbas brancas afeito à esculturas cerâmicas de formas fálicas, revela-se um completo desconhecedor do mínimo sobre sua obra.
É nos desenhos e pinturas que Brennand se mostra um artista excepcional. Tenho aqui um livro com seus desenhos e nele há uma série de trabalhos maravilhosos onde ele criou novas composições sobre desenhos muitos antigos, deixando vestígios do original transparecerem sobre as novas camadas. Não deixe de ver estes trabalhos.
Pois então, aproveitando a viagem ao Recife voltei lá na Cerâmica Brennand para visitar sua "menagerie" de criaturas. Foi Rosa, minha mulher, que bem definiu aquilo que vimos:
"Aqui tem-se a sensação de estar em outro tempo, nem passado, nem presente, nem futuro. Talvez todos estes tempos de uma vez só e ainda por cima em outro planeta."

Quantos gênios você já encontrou na vida?

Para alguns essa pode ser a medida de quantos encontros especiais a vida lhe concedeu.
Pessoas geniais e gênios são para mim tipos distintos.

Os primeiros têm a seu favor aquela inquietação criativa (chamem isso de curiosidade produtiva), e também a frequência com que acertam o alvo de suas idéias, objetivos, concepções. Há neles uma humanidade quase igual à da maioria das pessoas, porém diferenciam-se pelo talento e aptidões singulares, ambos lapidados com afinco ao longo de suas vidas. Pessoas geniais são resultado de um certo esforço pessoal, acredito.

Já os gênios guardam todas as características anteriores e um pouco além. Por mais pé no chão que sejam, por mais que transitem no nosso plano de efemeridades, possuem uma irradiação diferente, uma cabeça e um coração estelar, como se houvesse uma centelha a dar cor diferente às suas almas.
É preciso estar na presenca do gênio para reconhecê-lo.
Estas definições são minhas, e perdoem as pretensões literárias. Até hoje só conheci dois gênios e, portanto, não tenho muita experiência para descrever o tipo.

Encontro com Francisco Brennand



Francisco Brennand, ceramista, pintor e desenhista é um desses gênios que descrevi antes. Conheci-o em 2005 quando participei do juri do Festival de Humor e Histórias em Quadrinhos do Recife.



Foi assim:
O festival disponibilizou uma van para levar todos os artistas (brasileiros e gringos) para conhecer as coisas boas do Recife, dentre elas, logicamente, a cerâmica Brennand (da qual eu, ignorante, nunca ouvira falar). A motorista da van era uma pessoa do tipo "despachada" (como dizemos aqui no Rio), e me disse que poderia tentar achar o recluso artista e trazê-lo para vir falar conosco.

Quando Brennand chegou e apresentou-se, expliquei à ele que éramos um grupo de artistas gráficos, e que trabalhávamos para o suporte da página impressa, jornais, revistas e livros. Emendamos então numa breve conversa introdutória sobre arte , desenho, suportes efêmeros como o papel e eternos como a cerâmica. Estaria ali na questão da durabilidade do suporte o cerne da hierarquia nas artes visuais? Ele dizia uma ou outra palavra em francês para o Jano, e eu traduzia tudo para o inglês para os outros convidados.



Perguntei-lhe sobre o significado daquele cenário surreal de colunas, formas curvilíneas, relevos e esculturas eróticas, e aqueles animais no mínimo curiosos.
Brennand contou que o conjunto nascera dos escombros da antiga fábrica de telhas de sua família. Após alguns anos morando na França ele retornou ao Brasil em 1971 para encontrar ali o velho galpão de 1917 em destroços. Pediu então aos funcionários que limpassem a área dos escombros e de lá restavam de pé somente as fortes colunas de tijolos maçiços. Visualizou naquelas colunas os pedestais para esculturas que serviriam de guardiões para um "templo profano" onde se celebrariam os mitos de criação. Logo tratou de povoar aquele espaço com figuras cerâmicas que simbolizassem a vida, a fecundidade, a transformação, o mistério. São falos, vaginas, ovos, sapos, aves, placas com frases de filósofos, espelhos dágua e toda uma fantasmagoria pessoal.



Eu ia traduzindo sua fala para os gringos à medida em que caminhávamos. O velho contou que aquele imaginário nada tinha de erótico, como diziam as màs línguas a seu respeito. "Para falar da vida, é preciso sobretudo falar do sexo, da reprodução", explicou.

Ao passar sob uma abóbada de onde pendia um fio em cuja extremidade havia um ovo suspenso, notei que os convidados estrangeiros do festival já haviam se dispersado, atraídos pelas curiosas esculturas expostas em um galpão à esquerda. O velho Brennand prosseguia sua explanação e ao notar que eu era o único que restara, convidou-me para caminhar até a Accademia, a galeria que abriga suas pinturas e desenhos. Durante todo o percurso dei-me conta do acaso que havia me trazido até aquele momento. Aquela era uma aula master tête-a-tête com Francisco Brennand.

Na Accademia, cada obra inspirava um causo, adornado pela voz literata que brotava das longas barbas brancas do artista.
Ao ver uma das pinturas, comentei que havia ali uma semelhança com o universo de Balthus. Vi a surpresa estampar-se no rosto de Brennand.
"Ah rapaz, agora você bateu em uma porta certa!"
O velho pôs-se então a exaltar Balthus, e contou sobre os anos em que viveu Paris e o conheceu. Nesta época, teve a oportunidade de conhecer outros artistas importantes também.
Em Paris, Brennand era amigo de um jovem mexicano, incumbido pelo pai milionário de comprar a obra de "qualquer pintor famoso", a título de investimento. Assim os dois jovens latinos foram parar no ateliê de Braque. O rapaz mexicano adquiriu duas obras do cubista.

Fiquei fascinado com a série de trabalhos sobre Chapeuzinho Vermelho e também com os pastéis onde Brennand retrabalhou desenhos antigos de peixes, criando retratos de pessoas zoomórficas.
Aquele foi um encontro com um gênio, e eu jamais vou me esquecer.

4.6.07

Os inteligentes sabem Física


Aos que gostam de ler, recomendo uma visita ao blog do meu colega de colégio de São Bento, o Marcos Faria. É dele a frase "a humanidade é o sketchbook de Deus", postada no assunto "Diários Gráficos: uma prática cotidiana" em Abril.

Em meados dos anos 80, estudávamos juntos no segundo grau e fazíamos textos e imagens para o jornal do grêmio do São Bento. Como havia poucos colaboradores para o jornal, o Marcos escrevia com diversos pseudônimos: Vinícius Silva, M. Faria, e ocasionalmente, Bode, alcunha que ganhou devido a sua nada rala barba. (olha só...gostei da cacofonia destas 3 palavrinhas juntas).

Eu desenhava tudo, desde as crônicas, as propagandas, os cartazes que anunciavam o Sarau, e também camisetas com caricaturas de professores, caverinhas do Iron Maiden nas calças Jeans dos colegas, os tampos de fórmica das mesas... Desenhava tanto que levei bomba no primeiro ano.

Guardo grandes lembranças deste tempo em que os assuntos mais interessantes eram bandas de rock'n roll, rock progressivo, mulheres e o futebol (a ordem de importância era quase essa mesma). Hoje quase não ouço barulho ou zumbido, e futebol não passa nem perto da minha lista de paixões. Gosto da minha mulher, claro.

O Bode parece que ainda gosta de futebol, como se percebe ao clicar no título deste post.

Uma lembrança curiosa foi o dia em que todos os alunos fizeram uma vaquinha para levar o Bolinho a um puteiro. Até o Waldemir, professor de matemática contribuiu com 10 reais. Durante o recreio o plano vazou e o Bolinho... vazou também. Sumiu uma semana, e quando apareceu disse que estava doente.

Lembro do dia em que um temido professor de física, o velho bruxo Loureiro, exaltou em sala de aula as qualidades de um certo aluno "que sabia muito de física e matemática, e por isso era um dos mais inteligentes da escola". Eu pedi licença e levantei o dedo para discordar dele, porque "ninguém escrevia tão bem quanto o Bode, para mim o cara mais inteligente da escola". Meus colegas ficaram boquiabertos com aquela audácia em questionar o gutural Loureiro. O Bode quis se esconder no escaninho embaixo da carteira. E até eu fiquei impressionado comigo mesmo ao ver minha mão levantada e minha boca pedindo licença para discordar. Enfim, arroubos de juventude...

As notas do bode eram tão vermelhas quanto as minhas. Aliás, eu era péssimo, ruiiiim mesmo, mas... sabia desenhar! Desenhava inclusive as minhas provas de física, com aqueles problemas cabeludos que começavam com enunciados literários do tipo "...do telhado de um prédio, um corpo é lançado verticalmente para o espaço na velocidade x, calcule a ...", "Dois trens estão no mesmo trilho em sentidos contrários nas velocidades x e y, e vão se chocar no ponto...".

Aquilo implorava por desenhos!
Em um ano eu tirei sete zeros em física. Mas - questão de honra - minhas provas nunca foram entregues em branco; eram sempre cheias de desenhos.

Aquele aluno elogiado pelo Loureiro "porque que sabia tudo sobre física" fez universidade de dança, e hoje é um renomado diretor de um "Centro de Artes do Espetáculo" de uma universidade na Bahia. Hoje o Bode é jornalista de futebol (ficou quase 10 anos no Jornal dos Sports) e também escritor. Eu sou um ilustrador, professor de artes visuais e também um imbecil que perde tempo escrevendo blog para meia dúzia de manés.
Mas isso não há de durar para sempre.

(a imagem deste post é uma combinação de um desenho que fiz aos 7 anos, e um spread do meu sketchbook "Outlawed")

31.5.07

Top 10 da Revista How



Durante o mês de junho o meu site estará listado no portal da revista de design "How" como um dos "Top 10" do mês.

Fundada em 1985, a HOW Magazine é uma renomada publicação americana voltada para designers gráficos, e traz sempre importantes informações profissionais como entrevistas, portfolios, dicas de auto-promoção, competições (design e ilustração), negócios, novas tecnologias e processos.

O site deles já está nos meus bookmarks. É excelente!

Quer ter o seu site listado na How? Não tem mistério. Vai lá no link (título do post) e preencha a ficha. Se eles gostarem, melhor pra você.

27.5.07

Blogs aqui e lá


Há um certo tempo o blog Drawn publicou uma resenha sobre o meu trabalho (para ver clique no título). Deu uma ótima repercussão e a visitação foi tão intensa que o meu site foi "derrubado" umas 4 vezes (na época eu havia acabado de colocá-lo no ar e o plano do provedor tinha uma expectativa de visitações bem mais humilde).
Vale destacar que, no ano passado, este blog canadense foi listado pela revista Time como um dos 50 melhores lugares para se visitar na internet. E é mesmo, principalmente se você gosta de ilustração.

Aqui no Brasil, o melhor blog que eu conheço é o Widoníd Another Hiro, editado pelo colega ilustrador Hiro Kawahara. Os assuntos são sempre muito interessantes, e com o toque do texto do Hiro, sempre termino de ler os posts com um sorriso na boca. Vai lá em http://blog.hiro.art.br/

25.5.07

"Toda ponte deve ter princípio e fim"


Estou aqui assistindo à entrevista do Ziraldo no Jô Soares e, enquanto o comercial entra, escrevo rapidamente estas linhas.
Considero-o o maior artista gráfico brasileiro vivo. Aliás, são bem poucos os "gênios da raça" na minha lista dos vivos. Muito mais extensa é a lista dos que partiram para o andar de cima... E sem pensar muito coloco o J. Carlos no topo.
Concordo com o Jô quando diz que o Ziraldo está mesmo cada dia mais preto (ou segundo o próprio, cada vez mais com cara de indiano) e, aos 75 anos, o artista não dá o menor sinal de cansaço. É quase o dobro da minha idade, e, ao vê-lo, aprendo que preciso parar de reclamar e trabalhar mais, muito mais.
Dentre outros assuntos, Ziraldo foi lá pra falar do livro "Aspite", seu mais novo lançamento. O nome vem de "assessor de palpites", que é mais uma habilidade da qual ele se gaba. Ali ele reuniu toda sorte de palpites que deu ao longo da vida, alguns inclusive levados adiante, como a idéia de se colocar vitamina em macarrão. Disse o Ziraldo que a inclusão de macarrão na cesta básica foi também um palpite dele, depois de ver uma mendiga fervendo lascas de papelão numa lata d’água, para, dali, preparar um caldo que ela daria de comer aos filhos. Só no Brasil...
Um outro palpite do Ziraldo foi substituir a carne bovina por carne de peixe. "Porque peixe não morre afogado, não atola, não pega aftosa – e, ainda por cima, pode ser alimentado com merda." Um dos palpites que os dois – Jô e Ziraldo – elaboraram ali no meio da entrevista foi: "toda ponte deve ter princípio e fim."
Se antes elas eram uma metáfora para o encontro, para a aproximação, agora as pontes representam a indigência moral dos políticos brasileiros. A construção de pontes tornou-se o maior símbolo para a rapina e a bandalheira dos nossos homens públicos. Cambada de filhos-da-puta.
Certa vez ilustrei uma crônica genial do Moacyr Scliar sobre uma ponte. Reproduzo-a aqui.

20.5.07

Union Square, setembro de 2001



Vi com meus próprios olhos um evento que dividiu a história contemporânea entre o antes e o depois.
Esta é para mim a definição mais sucinta do que foi o 11 de setembro.
Às 10 pras 9 da manhã, um telefonema do Brasil pediu que eu ligasse a TV imediatamente.
Lembro-me que, ao ver aquele imenso buraco a arder em chamas, os primeiros pensamentos que me vieram à cabeça foram:
"Bombeiro nenhum vai conseguir apagar essa fornalha...só um tolo pode crer que um avião bateu ali por acidente"
Então 13 minutos depois minhas suspeitas se confirmaram: um outro avião abocanhava vorazmente a estrutura da segunda torre.
Estavam abertos os portais do apocalipse.
Acompanhei tudo pela minha pequena TV durante exatos 56 minutos, quando então a tela encheu-se de chuviscos, deixando-me apenas um confuso sinal de áudio. Ainda assim pude compreender sob a camada de ruídos o locutor de TV dizendo:
"The south tower is gone!"
Antenas de TV estavam situadas exatamente no topo do prédio que havia caído. Por isso meu aparelho não podia mais mostrar o que acontecia a apenas alguns quilômetros de onde eu estava.
Telefonei para o meu vizinho Steff, que morava no décimo quinto andar e tinha uma vista privilegiada da ponta sul de Manhattan.
"Steff, minha TV perdeu o sinal, mas eu acho que ouvi falarem que a torre caiu...você consegue ver alguma coisa?"
"Sim, tudo. Venha para cá logo pois a torre que restou não parece que vai se segurar por muito tempo"
Da janela do apartamento do Steff, eu podia acompanhar o desdobramento dos eventos com meus próprios olhos. Ainda assim olhava a todo momento para a enorme TV, cuja imagem provida por cabo me permitia uma visão perfeita do inferno que habitava aquela imensa nuvem de pó que havia engolfado a ponta de Manhattan.
Para crer no que via acontecer da janela eu precisava olhar a todo momento para a TV. Que ironia.
No dia seguinte a cidade era um deserto. Mas pouco a pouco as pessoas começaram a se reunir na praça Union Square, que logo se tornou um verdadeiro santuário de orações, choro, ranger de dentes e catarse coletiva. Artistas trouxeram papéis, canetas e tintas, e quem ali chegava tratava de deixar registrado seu manifesto, oração, ou desenho.

Haviam muitas crianças e também monges budistas, tocadores de gaitas de fole (que som triste e belo tem aquele instrumento), velhos e jovens, e também uma estranha energia no ar, algo que quase se podia pegar com a mão.
Fiz alguns desenhos na Union Square naquele dia. Mas tanto os desenhos quantos as fotos registraram apenas uma pálida idéia do que aconteceu ali.


19.5.07

Mergulho


Um mergulho. Reminiscências de um tempo de feridas abertas.

Ventania no Trigal



Encontrei este aqui nos meus backups de 7 anos atrás. Aquele chapéu foi herança do meu avô Altamiro.

Poetas, artistas e o seu trabalho


Há exatamente duas horas atrás tomei contato com o texto da poeta Wislawa Szymborska, polonesa e ganhadora do Nobel de literatura em 1996. Compartilho aqui trechos do seu discurso na solenidade do Nobel.
Troque-se a palavra "poetas" por "artistas" e estamos diante de verdades simples como a água que se bebe na concha das mãos. (ôpa, parafraseei um Mário Quintana aqui).

"...Ainda não faz tanto tempo, os poetas se esforçavam para nos escandalizar com suas roupas extravagantes e seu comportamento excêntrico. Tudo isso era só para encher os olhos do público. Sempre chegava a hora em que os poetas tinham de fechar a porta atrás de si, despir suas capas, seus penduricalhos e outras parafernálias poéticas e enfrentar - em silêncio, com paciência, à espera de si mesmos - a folha de papel ainda em branco. Pois, no final, é isso o que de fato conta."

" ...A inspiração não é um privilégio exclusivo de poetas e artistas. Existe, existiu, existirá sempre certo grupo de pessoas a quem a inspiração visita. É formada por todos aqueles que conscientemente escolheram a sua vocação, e fazem seu trabalho com amor e imaginação. Podem incluir médicos, professores, jardineiros - eu poderia fazer uma lista de mais de cem profissões. Seu trabalho se torna uma aventura constante, enquanto forem capazes de continuar a descobrir nele novos desafios. Dificuldades e reveses nunca sufocam a sua curiosidade. Um enxame de questões novas emerge de cada problema que eles solucionam.
Não existem muitas pessoas assim. A maioria dos habitantes da Terra trabalha para ganhar a vida. Trabalham porque têm de trabalhar. Não escolhem este ou aquele trabalho por paixão; as circunstâncias de suas vidas fizeram a escolha por eles. Trabalho sem amor, trabalho maçante, trabalho cujo mérito consiste no fato de que outros nem isso têm - aí está uma das mais penosas desventuras humanas. "
"Assim, embora eu possa recusar aos poetas o monopólio da inspiração, ainda os situo num grupo seleto de favoritos da Fortuna."

17.5.07

Cristo Maravilha



Aqui vai um desenho que fiz na madrugada de ontem (do mesmo ângulo que vemos do ateliê Marimbondo). Fim de tarde pesadamente nublado e o Redentor abençoando esta cidade que teima em ser maravilhosa...

Foi em 1859 que primeiro surgiu a idéia de construir uma estátua no Corcovado. Diante daquele pico o padre Pedro Maria Boss imaginou que ali se poderia erigir uma enorme estátua de Cristo e então pediu ajuda à Princesa Isabel para erguer o monumento. A princesa, que não tinha de onde tirar recursos para tal extravagância, nada pôde fazer.

A idéia só voltou à tona em 1921, para marcar a comemoração do Centenário da Independência do Brasil, que aconteceria no ano seguinte. A intenção agora era fazer um monumento em bronze, para ser colocado no alto do Pão de Açúcar.

Da primeira reunião oficial destinada a discutir o projeto e o local para a edificação do monumento, surgiu a primeira dúvida: onde assentar a estátua? No Corcovado, no Pão de Açúcar ou no Morro de Santo Antônio? Venceu a opção pelo maior dos pedestais. E assim a pedra fundamental da construção do monumento foi lançada no dia 4 de abril de 1922.

Diferente do que muitos pensavam (inclusive eu), o Cristo Redentor não foi um presente dos Franceses, mas o resultado do trabalho do engenheiro Heitor da Silva Costa (na foto com a maquete da estátua).

Foi na Europa, que Heitor escolheu o arquiteto Paul Landowsky para desenvolver o projeto, executar a maquete definitiva do Cristo e estudar problemas de construção e de base. Em 1928, uma comissão de técnicos examinou estudos, projetos e orçamentos. Vários materiais foram cogitados para o revestimento da estátua, mas por fim foi escolhida a pedra-sabão, que embora seja um material fraco, é extremamente resistente ao tempo e não deforma nem racha com as variações de temperatura. O próprio Morro do Corcovado forneceu toda a pedra sabão necessária para a obra.

Em 12 de outubro de 2006 o Cristo completou 75 anos, transcendendo o simbolismo religioso para se tornar um ícone da cidade. Católicos ou não, todos se rendem à grandiosidade da enorme estátua art deco que reverencia o Rio de Janeiro e é por ele reverenciado.

No mesmo ano a fundação New 7 Wonders estabeleceu um projeto para escolher as novas sete maravilhas do mundo contemporâneo. Além do nosso Cristo fazem parte da lista os "Moai" (as grandes estátuas da Ilha de Páscoa), a grande muralha da China e Machu Picchu.

Em 1º de Janeiro o concurso para eleger as novas sete maravilhas foi lançado, com vinte e uma "maravilhas" pré-selecionadas. O concurso acaba no dia 7 de setembro de 2007 e metade dos fundos arrecadados no projeto serão destinados à restauração de patrimônios em risco ao redor do mundo.

Clicando no link podemos votar no Cristo, além de outras 6 maravilhas. Mas o Redentor é o único brazuca da lista!
Eu votei no Cristo, em Machu Picchu, nos Moais, em Petra, no Taj Mahal, na Muralha da China, e na Acrópole da Grécia. Todos à exceção do Cristo foram feitos há trocentos anos atrás, fato que, para mim, os torna ainda mais maravilhosos.

Alguns detalhes sobre o Cristo:

Localização - Cume do Morro do Corcovado, 710 m acima do nível do mar
Altura da estátua - 30m
Altura do pedestal - 8m
Altura da cabeça - 3,75m
Comprimento da mão - 3,20m
Distância entre os extremos dos dedos - 28m
Peso da estátua - 1,145 toneladas
Peso da cabeça - 30 toneladas
Peso de cada mão - 8 toneladas
Peso de cada braço - 57 toneladas
Direitos de exploração de imagem: Mitra Arquiepiscopal do Rio de Janeiro (embora haja disputa com os herdeiros dos envolvidos na concepção da obra).
Melhor citação, referência ou apropriação indébita da sua imagem: Joãzinho Trinta e o carnaval "Ratos e Urubus Larguem minha Fantasia", que trouxe o Cristo empacotado (refêrencia ao artista Christo) com uma faixa dizendo "Mesmo Proibido Olhai Por Nós".

16.5.07

Falando Merda


Este mundo anda muito estranho. É um mata-mata que não acaba. Homens-bombas, tragédias ambientais, ideologias de conveniência, produtos de obsolescência programada, lixo industrial de alta toxicidade, "e-invenções" para nos deixar ainda mais atordoados de informação, e uma infinidade de novidades efêmeras que seguem despejadas às toneladas sobre todos os nossos órgãos sensoriais. É pau, é pedra, é o fim do caminho.

Mas e as artes?
Ufff... voltaram os iconoclastas.
Temos sempre que ouvir um sujeito falar em fim da pintura, fim do objeto artístico, fim da figuração, volta da figuração, como se tudo isso fosse "A" novidade. As artes plásticas só atestam sua própria condição de "a mais perdida e desnorteada de todas as artes". Então é lata de merda pra cá, cubo de esperma pra lá, e tem até artista que dá um tiro no próprio braço e um outro que faz performance suicidando-se de um prédio sobre uma lona estendida na calçada.

Enquanto isso a rapaziada do grafitti, da "Lowbrow art" e do pop surrealismo vão se embrenhando pelas frestas, comendo esse angu de caroço pelas beiradas.

Vá ver o teatro, vá ver a música, vá ver o cinema, a culinária, a moda, qualquer uma das outras artes. Elas inovam, reinventam-se, não picareteiam a si próprias. Parece que o barbante que guiava o caminho para fora do labirinto em que as artes plásticas se meteram foi usado numa instalação que ninguém vai ver (nem o minotauro!).

Nesta vida tudo muda e se transforma. As artes morrem apenas para renascerem diferentes no dia seguinte, no mês seguinte, na década seguinte. Ou não.
(e, que bom que inventaram esse "ou não", rota de fuga que redime a gente de qualquer sandice)

Viram a foto? Aquela belezinha recheada de cocô custou 22.300 libras ao Tate Museum de Londres. Pelo câmbio de hoje cada grama custou o equivalente a 3.054 reais.

Vai, clica lá no título e continue esse assunto que é tão divertido.

A morte da ilustração


Outro dia li uma entrevista de um ilustrador brasileiro em uma revista de design onde ele disse que a "ilustração morreu".
Não me recordo a última vez em que li uma besteira de tamanha magnitude na escala CRAP (para saber o que é CRAP, clique no título).

Por consideração e para evitar pré-julgamentos, decidi escrever um e-mail para ele e perguntar o que era aquilo. O colega até tentou se explicar, mas sua justificativa só fez jus ao velho ditado do brilhante advogado Evandro Lins e Silva, aquele do processo de impeachment contra o Collor:
"Uma defesa mal embasada é errática como o vôo do morcego"

Aquela foi mesmo uma resposta zig-zagueante e confusa, que me fez lembrar também de uma outra frase, se não me engano de Oscar Wilde, que dizia:
"...e desculpe-me por esta carta tão longa, é que não encontrei tempo de escrever uma menor..."

Existe um equívoco, a meu ver, em declarar a morte de uma atividade que está justamente em franca retomada, após um período nebuloso acontecido ali por volta do ano 2000. Mas pior ainda, lamentável e imperdoável, é escrever o obituário da ilustração em uma revista dirigida a designers gráficos, justamente os profissionais que contratam a nós, os ilustradores.

O fato de muitos artistas - eu incluído - estarem ocupadísimos com a demanda por ilustrações é um sintoma de que a atividade continua uma sugadora voraz das nossas horas de vigília. E se alguém morreu nessa história, deve ter sido o Norman Rockwell, o Arthur Rackham, o Al Hirschfeld, e outros ilustradores que alguns por aí devem julgar como exemplares vetustos de uma raça em extinção.
Artistas de sorte foram aqueles. Morreram com seus lápis na mão ( e se Deus quiser, um dia eu também subirei assim ).

Na defesa da tese de que a "ilustração morreu", usou-se o argumento de " a ilustração acabou da forma como era há 15, 20 anos atrás, estando hoje integrada à uma visão global de projeto". E diante da saraivada de críticas, o autor da frase disse que não foi bem interpretado.

Então tá.

Os automóveis acabaram. Não são os mesmos de 15, 20 anos atrás. Precisamos inventar um outro nome para essas coisas que nos levam pra lá e pra cá apoiados sobre pneus.
O mesmo vale para a música. Hoje ela pode ser feita sem instrumentos, uma verdadeira colagem de frases musicais pinçadas de diversas fontes. Dá pra carregar centenas delas no chaveiro. Paramos até de comprar CDs. Mas, que incrível, essa coisa imaterial, com ritmo, harmonia e melodia e que alegra nossa alma e os ouvidos, ainda se chama música!

Conheci um artista (?) que me disse que a pintura havia morrido, que não havia mais nada a se dizer com tintas e pincéis. Ele, que só sabia o segredo da mistura de terebentina com óleo de linhaça, já não sabia mais O QUE pintar, e por isso bradava:
"...todo mundo já fez figuras humanas, retratos, paisagens, o grotesco, o sublime, abstrações, geometrias, esgotamos as possibilidades do suporte...Acabou-se, a pintura morreu!"

Morreu para ele!

(a ilustração deste post é para um livro ainda não-publicado. Representa o Kadish, uma oração judaica associada aos rituais de luto)

25.4.07

Diários Gráficos: uma prática cotidiana


Mais do que um caderno de viagens ou local de registros visuais sobre o cotidiano, o diário gráfico é um suporte que propõe uma  ilimitada liberdade de expressão, experimentação e descobertas.

Embora eu goste bastante de desenhar - e o faça constantemente - tenho usado os meus cadernos para fazer outro tipo de trabalho. No momento interessam-me  aquelas experimentações visuais onde combino fotografias com colagens, faço “transferências” com solvente, deixo umas coisas escritas e também brinco com os velhos conhecidos lápis, pincel, aquarela, caneta, tinta.

Essa pesquisa pessoal começou para mim com os cadernos do Dan Eldon, e depois fui levado por correntezas naturais a conhecer o trabalho do fotógrafo Peter Beard (clique aí no título para conferir)) . Valeu muito a pena ter topado com o trabalho dos dois no meu caminho.

Percebo hoje um ressurgimento da tradição dos diários gráficos, com muitos jovens artistas de caderno à mão, todos registrando suas impressões do mundo mas cada qual à sua maneira peculiar. Nas páginas destes cadernos fica o registro do que a memória pode esmaecer. Estão lá os fragmentos do cotidiano, notas, recortes de jornais e revistas, combinações de fotos com texto, tickets de cinema e metrô, selos antigos. Memória, tempo, caldeirão de ideias.

Digo sempre que para o artista visual (ou qualquer indivíduo criativo), é uma boa idéia desenvolver o quanto antes o hábito de manter um sketchbook so alcance da mão e a todo momento. Lembre-se que tempo é um dos pilares desta prática. Tempo para ficar diante do caderno.

E aqui fica uma dica para aqueles que se guardam e se tolhem, para os que hesitam e os que pensam muito antes de tocar o papel, os que aguardam poder apenas registrar a exatidão de suas obras primas pessoais, as manifestações imaculadamente corretas.

Nas páginas do Diário Gráfico o papel vai guardar com a mesma generosidade o traço nascido da intuição e também o da observação. A mancha e o gesto, o acaso e os “acidentes felizes”. No caderno, páginas distantes podem se conectar  peças distintas, todas pertencentes à uma mesma ideia.
Não há ali lugar para o bonito nem o feio, nem para o certo ou o errado.

O entusiasmo com esta pesquisa visual nos cadernos levou-me a elaborar um curso onde proponho uma vivência intensiva no universo dos cadernos de ideias.

Ao longo dos ultimos 10 anos tenho viajado com o Diário Gráfico pelo Brasil, indo a cidades de norte a sul do país. O curso têm sido para mim muito mais do que uma ferramenta de trabalho mas uma sólida ponte para propiciar o encontro e a troca de ideias entre pessoas criativas.

24.4.07

Black: back to basics



Acabo de receber a mais recente Revista Colectiva, um projeto editorial colaborativo editado na Costa Rica pelo designer Venezuelano, Juan Manuel Betancourt, o Juancho. Nesta nona edição, o tema é Black: back to basics, uma sugestão do ilustrador brazuca e japonófilo Kako ("el hombre de los vectores con corazón") para ajudar a revista a contornar o problema dos altos custos de impressão em policromia
O conceito que amarra as peças publicadas neste número segue a idéia de voltarmos aos primórdios: o pretinho básico, primal, do yin e yang, do sim e do não, enfim, aquele tiçãozão sem os cinzinhas frescos dos indecisos.
É enfim o preto das origens da profissão dos artistas gráficos.
Este número conta com a presença de vários brazucas ilustres e também esta arte do "peixinho prateado que morde os dedinhos", uma monotipia descompromissada que veio do meu sketchbook. A outra imagem, uma página dupla do caderno preto ficou no arquivo e compartilho aqui e agora.
A Colectiva traz também um artigo que escrevi sobre a profissão do ilustrador, de onde viemos, para onde vamos.
Está lá que, quando Gutemberg inventou a prensa, os artistas tiveram que se adaptar àquela tosca tecnologia de produção dos múltiplos impressos. A história é longa, e sofremos por mais de 400 anos até a invenção dos processos fotomecânicos. Para ler o artigo na íntegra visite a seção de textos do meu site em www.renatoalarcao.com.br
O Juancho, editor que veio da terra de Hugo Chavez, sempre lança sua bela revista com uma exposição não menos bacanuda. Vejam o Flick da Colectiva clicando no título deste post ou então procure pelos videozinhos no You Tube colocando "revista colectiva" no box de "search"

18.4.07

Cubos de papel e couro com folhas


Disse o escritor Jorge Luis Borges:
"Pegar num livro e abri-lo mantém a possibilidade do acontecimento estético. O que são as palavras encostadas umas às outras num livro? O que são esses símbolos mortos? Absolutamente nada. O que é um livro, se o não abrimos? É simplesmente um cubo de papel e de couro, com folhas; mas se o lemos acontece uma coisa extraordinária; creio que não é a mesma de cada vez que o fazemos".

O link te levará ao CBA, o The Center for Book Arts em Nova York, escola onde minha paixão por livros ganhou asas.

12.4.07

Big Damn Prints - Coisas que só rolam em Nova York


Eu acredito que uma universidade se faz com muitas coisas - verbas inclusive - , mas principalmente com professores com espírito de iniciativa e alunos constantemente motivados e desafiados.
Sou assinante de uma newsletter digital chamada Dart, e a que me chegou hoje traz uma idéia fabulosa de um professor de gravura do Pratt (uma escola de artes visuais de Nova York): o evento Big Damn Prints.
Com o intuito de promover e expandir os limites da gravura como técnica, e também envolver os alunos em um processo criativo colaborativo, este evento realiza a céu aberto a impressão de enormes xilos nas próprias ruas do campus do Pratt. Estas gravuras são na verdade muito maiores do que qualquer prensa jamais poderia conter, e por isso a impressão é feita com a ajuda de um rolo compressor. Sim, um rolo compressor daqueles que aplainam asfalto na rua!
As xilos ficam então em exposição no próprio local onde foram impressas, seja para estimular novos adeptos da técnica ou simplesmente para estar ali e causar uma grande...hum...impressão!
O Big Damn Prints envolve mais de 40 professores, além de artistas convidados, que orientam os alunos e os neófitos nesta grande celebração criativa, todos envolvidos na produção das imensas obras .
Quem já frequentou um ateliê de gravura sabe bem que este é um dos melhores ambientes criativos para se trabalhar, um local onde a generosidade e a amizade são tão parte do cenário quanto as próprias tintas e prensas.
Tive a felicidade de frequentar dois ateliês, e posso dizer que neles encontrei grandes amigos e pessoas-chave na minha formação. O primeiro foi na EBA-UFRJ, onde aprendi com o "samurai da lito", Kazuo Iha, e com amigos como Ronaldo Rocha, Diucênio Rangel e Gian Shimada. Bem depois, já em Nova York, trabalhei no Robert Blackburn Printmaking Workshop, onde tive o amigo Bruce Waldman como meu mestre na arte da Monotipia.
No ambiente dos ateliês de gravura somos apresentados a muitos artistas, inclusive aqueles que já foram para o andar de cima e hoje só estão nos livros. Um exemplo é a alemã Kathe Kollwitz, maravilhosa gravadora, muito ativa no período entre as duas grandes guerras mundiais. Kathe defendia sua opção pela gravura como meio de expressão, por ser esta "a mais democrática das artes". Eu concordo e acrescento que a ilustração autoral (destaque para o "autoral", por favor) também se encaixa neste conceito.

Este ano, o artista convidado do Big Damn Prints do Pratt Institute é Martin Mazzora do atelier de gravura Cannonball Press. Quem quiser ver mais imagens do atelier Cannonball, é só clicar no título do post. Vai, agora corre para se inscrever num ateliê de gravura mais próximo da sua casa!.

10.4.07

Onde encontrar os melhores ilustradores do Brasil


O trabalho do ilustrador hoje está não somente em jornais, revistas e livros, mas também em cartazes e story-boards, embalagens, videogames, cenários de cinema, animação e TV, rótulos de produtos, publicidade, internet etc.
Basta olhar ao redor para perceber o quanto estes artistas vêm ganhando mais e mais espaço. Sua arte é criada não para museus, galerias ou paredes de casas, mas sim para a reprodução e a comunicação de massa.
A criação da SIB, Sociedade dos Ilustradores do Brasil, veio para resgatar os valores e a história desta profissão no país, além de propiciar uma aproximação entre artistas e profissionais que usam a imagem ilustrada em seus projetos.
Através de encontros regulares, exposições e eventos como o Ilustra Brasil!, a entidade tem proporcionado o intercâmbio de idéias entre ilustradores e mostrado ao público em geral um pouco do universo destes artistas que, trancados em seu estúdios, inventam o mundo onde antes havia apenas o papel, a tela, o mapa de bits em branco.
Passados 5 anos desde a sua criação, a Sociedade dos Ilustradores do Brasil já conta com mais de 250 profissionais, dentre eles os veteranos Rui de Oliveira (criador da primeira abertura da série Sítio do Pica Pau Amarelo), Benício (ilustrador de todos os cartazes de filmes dos Trapalhões), Guto Lacaz, e também os meus favoritos Cárcamo, Patrícia Lima, Daniel Bueno, Kako, Hiro Kawahara, Samuel Casal, ihh são tantos...
No portal da SIB os interessados vão encontrar amplas informações sobre a sociedade e seus artistas, bem como importantes ferramentas de trabalho como contratos, orçamentos e leis de direitos. Em especial, vale checar a Galeria virtual, o blog e também fazer o download do Info SIB, o jornal eletrônico que eu edito junto com o colega ilustrador Orlando Pedroso.
Surgida diante da necessidade de unir os ilustradores face a tantos desafios na arena profissional, a SIB vem traçando um sólido plano de trabalho, para crescer e ficar à altura da tarefa de representar estes artistas tão importantes para a cultura gráfica do país. Com um trabalho sério pela normatização da atividade da ilustração no Brasil, a entidade vem estabelecendo como referência uma postura profissional e ética por parte de seus associados, com a finalidade de defender a arte, o mercado, e a formação das futuras gerações de ilustradores.

8.3.07

ABC Judaico


A ilustração acima foi criada para o livro ABC Judaico, escrito por Moacyr Scliar. Este projeto para a Edições SM se juntará aos títulos "ABC Árabe" e "ABC Africano". Uma grande idéia!
A letra "W" deste ABC judaico fala de Elie Wiesel, escritor judeu nascido na Romênia e sobrevivente dos campos de exterminio, para onde foi levado aos 15 anos de idade. Wiesel escreveu mais de 40 livros (dentre eles "Noite") e em 1986 ganhou o prêmio Nobel da paz. Foi um defensor não somente de Israel, mas também abraçou a causa dos desaparecidos durante a ditadura militar na Argentina, os refugiados do Cambodja e as vítimas do apartheid na África do Sul.
Este projeto sem dúvida é dos mais apaixonantes com os quais estive envolvido.
Para conhecer o site do Moacyr Scliar, clique no título da mensagem. Lá chegando, clique em "Moacyr" para conhecer um pouco sobre este grande escritor.

1.3.07

Ah, os sebos...


Quando passo em frente a um sebo é sempre a mesma coisa, vem uma voz de não sei onde, que logo me diz:
- Entra vai, entra! Tem um livro órfão te esperando em uma daquelas prateleiras empoeiradas!
Uma segunda voz, em contrapartida, tenta controlar aquele impulso que já me domina.
- Mas, outro livro? Quantas vidas você espera viver para ler todos os livros que tem?

Meu livro mais recente me encontrou assim...

Estava eu andando pelas ruas do centro do Rio à procura de um sobrado onde um sujeito vendia uns móveis, gravuras e mapas antigos. Uma perna e depois a outra, e eu procurava o tal lugar enquanto derretia-me sob o verãozão solar e carioca.
-Onde fica a Rua dos inválidos?
A pergunta foi feita a um flanelinha que encontrei, uns 350 quilômetros atrás.
A camisa já era uma segunda pele, viscosa e desconfortável.
Camelôs, popozudas, banguelas, taxistas cafonas, mendigos putrefatos, putas véias e malandros tornavam pitoresca a paisagem da praça Tiradentes. A arquitetura centenária e muito bela abriga lojas de ferragens, botequins decadentes e sapatarias de gosto duvidoso. Ruas que fedem a mijo, fumaça e amendoim torradinho.
-Qualquer dia desses venho desenhar por aqui...
Ao passar em frente a um sebo, umas vozes internas bastante familiares começaram a se manifestar. De um lado vinha a bibliófila, e do outro, a prática e necessária voz da consciência anti-consumista, a castradora, a irritante, a racional, e por tantos adjetivos ganhou um peteleco e caiu do meu ombro.
-Entra vai, entra! Tem um livro órfão lá dentro..."
"Ô chefe, onde ficam os livros de arte?", perguntei.
O sujeito, rosto de mapa embaçado, apontou uma estante que ia até o teto.
Olhei por meia hora e nada. Nada além do básico de sempre: uns catálogos de leilões, um ou outro livro PB sobre os impressionistas, histórias da arte (publicados na década de 60...) etc.
Acredito piamente que, quando estamos nos sebos são os livros que nos encontram, e não o contrário. Esse é um puta clichezão mas repleto de verdade.
O tempo estava mesmo muito quente naquela loja empoeirada e talvez os livros estivessem cochilando pois senti-me ignorado. Retornei então ao meu caminho em busca do tal sobrado do antiquário, motivo da minha vinda para o inferno que é o centro do Rio. Apesar do calor, dos cheiros e dos muitos ruídos, sentia-me ligeiramente leve por não ter cedido mais uma vez aos meus impulsos bibliófilos (e também por ter feito uma economiazinha).
"Putaquipariu, essa Rua dos Inválidos é longe pa carai...", limpei a espuminha dos cantos da boca com a gola da camisa. O ar estava repleto de sons de carnaval que explodiam das lojas de discos, todas breguíssimas.
"Chato pra cacete esse estado de euforia a troco de nada", meus pés reclamavam.
Outro sebo. Fui pegar informação com aquele tiozinho sentado na cadeira à porta.
"Ô chefe, onde fica a rua dos... Bacana esse teu sebo hem? Organizadinho, limpinho... Eh, onde ficam os livros de arte?
A loja era bem grande, porém incrivelmente estreita. Entrei e fui logo browsear as lombadas na prateleira "Artes". Havia pouca coisa lá do meu interesse, talvez um livro de logotipos do Ziraldo, uns sobre o Aleijadinho, mas no geral o que havia era o PF básico das traças. Fui passeando por entre as estantes até que, de longe, uma capa amarela me chamou atenção. Na prateleira onde ela estava havia uma tarja onde se lia "Culinária".
Curioso me aproximei. Dizia em letras explodidas: "Manga! Manga! The Art of The japanese Comic Books".
Acho que algum funcionário do sebo leu "Manga" na capa e imaginou tratar-se de um livro de receitas com aquela fruta! Voltei para a prateleira das artes.
Pois então, outra meia hora ia sendo jogada fora quando, já a caminho da porta, parei em frente à estante que ostentava a etiqueta "Poesia". Deu até vontade de arrancar aquela etiqueta e colar no meu sketchbook.
"Quem sabe acho uma Clarisse Lispector, um Dylan Thomas, um Nerudazinho..." matutei enquanto aguçava os ouvidos para ver se algum daqueles livros iria me sussurrar um pedido de socorro.
E eis que meus olhos caíram sobre uma grossa lombada adornada com uma tipografia feita à mão: "Edgar Alan Poe's Tales of Mystery and imagination".
"Aham...", peguei a obra com carinho. Era um fac-símile de uma edição inglesa de 1936. Em bom estado e com várias ilustrações de Arthur Rackham, umas em PB, outras em cores, o volume estava ligeiramente amarelado, mas era uma belezura. Rackham é um dos meus ilustradores favoritos, mestre vitoriano do gênero fantástico, um bico de pena fenomenal. O livro, que agora já estava bem acolhido em minhas mãos possessivas, havia sido impresso na Hungria em 1986. A primeira página trazia o preço a lápis: 65 reais.
"Hum...podia ser menos" fiz as contas. "Ô tio, gostei desse livro. Pago quarentão nele."
"48", Disse o velho do balcão.
O meu limite era 40, sem margem para esticar nem um centavo.
"Hum...vou dar uma volta e depois passo aqui...", disse já a caminho da porta, onde completei minha frase, malandramente, "... o senhor sabe que o freguês que diz isso nunca volta né?"
- "45", falou o velho.
"vou dar uma olhada um pouco mais no que mais o senhor tem por aqui, e enquanto isso penso no assunto", sorri como um astuto mercador persa, e fui percorrer as lombadas distraidamente por uns longos minutos. Quase podia agarrar no ar a expectativa do velho, que já estava de pé nos fundos do sebo, soltando uma fina caraminhola de fumaça enquanto fingia organizar sua mesa.
Quando eu já estava chegando na última estante, dramaticamente posicionada junto aos ferrolhos da porta de correr, o velho me chamou de volta.
Claro, o livro de Poe deixou a loja feliz da vida, pois finalmente havia encontrado um dono.

17.2.07

Dica de livro


A minha fila de livros andou. Nem sei como tenho conseguido achar tempo para ler em meio a tantas ocupações. Mas li uns bons livros recentemente - e de forma tão prazeirosa - que até deu vontade de voltar aqui no blog pra compartilhar isso com vocês.
O primeiro deles é "O Porto e a Cidade, o Rio de Janeiro entre 1565 e 1910" da editora Casa da Palavra (um belo volume com design de Victor Burton).
Comprei-o em uma pequena mas muito boa livraria de Brasília, quando levei para aquela cidade o workshop Diário Gráfico (durante a exposição Ilustrando em Revista, da Editora Abril ). Fotos aqui em breve.
Lembro de ter dito ao vendedor no balcão da loja que sempre deixo pra comprar meus livros em pequenas livrarias, para que elas consigam nadar na mesma piscina onde se refastelam as "mega-bookstores corporativas". Viva as pequenas! (inclusive as editoras!)

"O Porto e a Cidade" é um livro imperdível para aqueles que, como eu, são apaixonados pela visão da Baía de Guanabara, sua ligação com a história urbana do Rio de Janeiro, que se confunde com a própria história do porto.
Desde o século 16, circularam nas águas da antiga baía do Rio de Janeiro embarcações de corsários franceses, navios negreiros, baleeiros, naus inglesas, holandesas, chinesas, portuguesas, e pequenas embarcações de pesca e transporte de açúcar dos engenhos da Baixada (região onde morei até os meus 27 anos). Na área onde moro hoje, Niterói, haviam muitas aldeias de índios, e os próprios nomes dos bairros da cidade contam um pouco dessa história: Icaraí, Piratininga, Itaipu, Pendotiba....
Guarnecida por diversos fortes em ambos os lados, a baía tem uma formação geográfica perfeita para o porto que veio a se tornar o maior protagonista do surgimento da cidade do Rio de Janeiro.

A minha fixação com estas imagens mentais faz com que todas as vezes em que eu atravesse o vão central da ponte Rio-Niterói um pensamento me visite a cabeça:
"No tempo das caravelas somente um pássaro poderia ver a baía deste ângulo. Que privilégio..."

Mas sempre sinto também uma ponta de tristeza ao ver que o que somos capazes de destruir em menos de 500 anos. A baía de Guanabara é extraordinária e merecia um projeto sério de despoluição.

"O Porto e a Cidade" traz também um impressionante capítulo sobre o comércio de escravos na cidade. Aprendi que a região onde ficavam os depósitos de negros, antes chamada de Valongo, é bem pertinho de onde ficam hoje os bairros da Gamboa e do Santo Cristo, e também a Cidade do Samba (onde estão os barracões de escolas de samba e toda infra-estrutura dos desfiles). Não deve ter sido coincidência a escolha do local pois foi justamente ali que os cantos e lamentos dos negros saudosos vieram a dar origem ao samba. Aliás, bom carnaval para todos, seja qual for o seu estilo.

A ilustração acima foi feita por um artista chinês, por volta dos anos 1830. Veja ao fundo as duas torres triangulares do Mosteiro de São Bento (onde me casei!), e à sua direita a ilha de Villegaignon, ocupada pelos franceses em 1555 (ficaram lá 12 anos), local onde hoje ficam as instalações do Colégio Naval, na praça Mauá.

Para fechar este longo post, separei um trechinho sobre um evento ocorrido nas águas da Baía do Rio de Janeiro, hoje de Guanabara, em pleno século 19:

"No ano de 1833, o veleiro H.M.S. Snake da marinha britânica, em missão de busca por navios negreiros, interceptou o veleiro português Maria da Glória na entrada do porto do Rio. Sua carga consistia de 400 escravos, quase todos com menos de 12 anos."