8.3.07

ABC Judaico


A ilustração acima foi criada para o livro ABC Judaico, escrito por Moacyr Scliar. Este projeto para a Edições SM se juntará aos títulos "ABC Árabe" e "ABC Africano". Uma grande idéia!
A letra "W" deste ABC judaico fala de Elie Wiesel, escritor judeu nascido na Romênia e sobrevivente dos campos de exterminio, para onde foi levado aos 15 anos de idade. Wiesel escreveu mais de 40 livros (dentre eles "Noite") e em 1986 ganhou o prêmio Nobel da paz. Foi um defensor não somente de Israel, mas também abraçou a causa dos desaparecidos durante a ditadura militar na Argentina, os refugiados do Cambodja e as vítimas do apartheid na África do Sul.
Este projeto sem dúvida é dos mais apaixonantes com os quais estive envolvido.
Para conhecer o site do Moacyr Scliar, clique no título da mensagem. Lá chegando, clique em "Moacyr" para conhecer um pouco sobre este grande escritor.

1.3.07

Ah, os sebos...


Quando passo em frente a um sebo é sempre a mesma coisa, vem uma voz de não sei onde, que logo me diz:
- Entra vai, entra! Tem um livro órfão te esperando em uma daquelas prateleiras empoeiradas!
Uma segunda voz, em contrapartida, tenta controlar aquele impulso que já me domina.
- Mas, outro livro? Quantas vidas você espera viver para ler todos os livros que tem?

Meu livro mais recente me encontrou assim...

Estava eu andando pelas ruas do centro do Rio à procura de um sobrado onde um sujeito vendia uns móveis, gravuras e mapas antigos. Uma perna e depois a outra, e eu procurava o tal lugar enquanto derretia-me sob o verãozão solar e carioca.
-Onde fica a Rua dos inválidos?
A pergunta foi feita a um flanelinha que encontrei, uns 350 quilômetros atrás.
A camisa já era uma segunda pele, viscosa e desconfortável.
Camelôs, popozudas, banguelas, taxistas cafonas, mendigos putrefatos, putas véias e malandros tornavam pitoresca a paisagem da praça Tiradentes. A arquitetura centenária e muito bela abriga lojas de ferragens, botequins decadentes e sapatarias de gosto duvidoso. Ruas que fedem a mijo, fumaça e amendoim torradinho.
-Qualquer dia desses venho desenhar por aqui...
Ao passar em frente a um sebo, umas vozes internas bastante familiares começaram a se manifestar. De um lado vinha a bibliófila, e do outro, a prática e necessária voz da consciência anti-consumista, a castradora, a irritante, a racional, e por tantos adjetivos ganhou um peteleco e caiu do meu ombro.
-Entra vai, entra! Tem um livro órfão lá dentro..."
"Ô chefe, onde ficam os livros de arte?", perguntei.
O sujeito, rosto de mapa embaçado, apontou uma estante que ia até o teto.
Olhei por meia hora e nada. Nada além do básico de sempre: uns catálogos de leilões, um ou outro livro PB sobre os impressionistas, histórias da arte (publicados na década de 60...) etc.
Acredito piamente que, quando estamos nos sebos são os livros que nos encontram, e não o contrário. Esse é um puta clichezão mas repleto de verdade.
O tempo estava mesmo muito quente naquela loja empoeirada e talvez os livros estivessem cochilando pois senti-me ignorado. Retornei então ao meu caminho em busca do tal sobrado do antiquário, motivo da minha vinda para o inferno que é o centro do Rio. Apesar do calor, dos cheiros e dos muitos ruídos, sentia-me ligeiramente leve por não ter cedido mais uma vez aos meus impulsos bibliófilos (e também por ter feito uma economiazinha).
"Putaquipariu, essa Rua dos Inválidos é longe pa carai...", limpei a espuminha dos cantos da boca com a gola da camisa. O ar estava repleto de sons de carnaval que explodiam das lojas de discos, todas breguíssimas.
"Chato pra cacete esse estado de euforia a troco de nada", meus pés reclamavam.
Outro sebo. Fui pegar informação com aquele tiozinho sentado na cadeira à porta.
"Ô chefe, onde fica a rua dos... Bacana esse teu sebo hem? Organizadinho, limpinho... Eh, onde ficam os livros de arte?
A loja era bem grande, porém incrivelmente estreita. Entrei e fui logo browsear as lombadas na prateleira "Artes". Havia pouca coisa lá do meu interesse, talvez um livro de logotipos do Ziraldo, uns sobre o Aleijadinho, mas no geral o que havia era o PF básico das traças. Fui passeando por entre as estantes até que, de longe, uma capa amarela me chamou atenção. Na prateleira onde ela estava havia uma tarja onde se lia "Culinária".
Curioso me aproximei. Dizia em letras explodidas: "Manga! Manga! The Art of The japanese Comic Books".
Acho que algum funcionário do sebo leu "Manga" na capa e imaginou tratar-se de um livro de receitas com aquela fruta! Voltei para a prateleira das artes.
Pois então, outra meia hora ia sendo jogada fora quando, já a caminho da porta, parei em frente à estante que ostentava a etiqueta "Poesia". Deu até vontade de arrancar aquela etiqueta e colar no meu sketchbook.
"Quem sabe acho uma Clarisse Lispector, um Dylan Thomas, um Nerudazinho..." matutei enquanto aguçava os ouvidos para ver se algum daqueles livros iria me sussurrar um pedido de socorro.
E eis que meus olhos caíram sobre uma grossa lombada adornada com uma tipografia feita à mão: "Edgar Alan Poe's Tales of Mystery and imagination".
"Aham...", peguei a obra com carinho. Era um fac-símile de uma edição inglesa de 1936. Em bom estado e com várias ilustrações de Arthur Rackham, umas em PB, outras em cores, o volume estava ligeiramente amarelado, mas era uma belezura. Rackham é um dos meus ilustradores favoritos, mestre vitoriano do gênero fantástico, um bico de pena fenomenal. O livro, que agora já estava bem acolhido em minhas mãos possessivas, havia sido impresso na Hungria em 1986. A primeira página trazia o preço a lápis: 65 reais.
"Hum...podia ser menos" fiz as contas. "Ô tio, gostei desse livro. Pago quarentão nele."
"48", Disse o velho do balcão.
O meu limite era 40, sem margem para esticar nem um centavo.
"Hum...vou dar uma volta e depois passo aqui...", disse já a caminho da porta, onde completei minha frase, malandramente, "... o senhor sabe que o freguês que diz isso nunca volta né?"
- "45", falou o velho.
"vou dar uma olhada um pouco mais no que mais o senhor tem por aqui, e enquanto isso penso no assunto", sorri como um astuto mercador persa, e fui percorrer as lombadas distraidamente por uns longos minutos. Quase podia agarrar no ar a expectativa do velho, que já estava de pé nos fundos do sebo, soltando uma fina caraminhola de fumaça enquanto fingia organizar sua mesa.
Quando eu já estava chegando na última estante, dramaticamente posicionada junto aos ferrolhos da porta de correr, o velho me chamou de volta.
Claro, o livro de Poe deixou a loja feliz da vida, pois finalmente havia encontrado um dono.

17.2.07

Dica de livro


A minha fila de livros andou. Nem sei como tenho conseguido achar tempo para ler em meio a tantas ocupações. Mas li uns bons livros recentemente - e de forma tão prazeirosa - que até deu vontade de voltar aqui no blog pra compartilhar isso com vocês.
O primeiro deles é "O Porto e a Cidade, o Rio de Janeiro entre 1565 e 1910" da editora Casa da Palavra (um belo volume com design de Victor Burton).
Comprei-o em uma pequena mas muito boa livraria de Brasília, quando levei para aquela cidade o workshop Diário Gráfico (durante a exposição Ilustrando em Revista, da Editora Abril ). Fotos aqui em breve.
Lembro de ter dito ao vendedor no balcão da loja que sempre deixo pra comprar meus livros em pequenas livrarias, para que elas consigam nadar na mesma piscina onde se refastelam as "mega-bookstores corporativas". Viva as pequenas! (inclusive as editoras!)

"O Porto e a Cidade" é um livro imperdível para aqueles que, como eu, são apaixonados pela visão da Baía de Guanabara, sua ligação com a história urbana do Rio de Janeiro, que se confunde com a própria história do porto.
Desde o século 16, circularam nas águas da antiga baía do Rio de Janeiro embarcações de corsários franceses, navios negreiros, baleeiros, naus inglesas, holandesas, chinesas, portuguesas, e pequenas embarcações de pesca e transporte de açúcar dos engenhos da Baixada (região onde morei até os meus 27 anos). Na área onde moro hoje, Niterói, haviam muitas aldeias de índios, e os próprios nomes dos bairros da cidade contam um pouco dessa história: Icaraí, Piratininga, Itaipu, Pendotiba....
Guarnecida por diversos fortes em ambos os lados, a baía tem uma formação geográfica perfeita para o porto que veio a se tornar o maior protagonista do surgimento da cidade do Rio de Janeiro.

A minha fixação com estas imagens mentais faz com que todas as vezes em que eu atravesse o vão central da ponte Rio-Niterói um pensamento me visite a cabeça:
"No tempo das caravelas somente um pássaro poderia ver a baía deste ângulo. Que privilégio..."

Mas sempre sinto também uma ponta de tristeza ao ver que o que somos capazes de destruir em menos de 500 anos. A baía de Guanabara é extraordinária e merecia um projeto sério de despoluição.

"O Porto e a Cidade" traz também um impressionante capítulo sobre o comércio de escravos na cidade. Aprendi que a região onde ficavam os depósitos de negros, antes chamada de Valongo, é bem pertinho de onde ficam hoje os bairros da Gamboa e do Santo Cristo, e também a Cidade do Samba (onde estão os barracões de escolas de samba e toda infra-estrutura dos desfiles). Não deve ter sido coincidência a escolha do local pois foi justamente ali que os cantos e lamentos dos negros saudosos vieram a dar origem ao samba. Aliás, bom carnaval para todos, seja qual for o seu estilo.

A ilustração acima foi feita por um artista chinês, por volta dos anos 1830. Veja ao fundo as duas torres triangulares do Mosteiro de São Bento (onde me casei!), e à sua direita a ilha de Villegaignon, ocupada pelos franceses em 1555 (ficaram lá 12 anos), local onde hoje ficam as instalações do Colégio Naval, na praça Mauá.

Para fechar este longo post, separei um trechinho sobre um evento ocorrido nas águas da Baía do Rio de Janeiro, hoje de Guanabara, em pleno século 19:

"No ano de 1833, o veleiro H.M.S. Snake da marinha britânica, em missão de busca por navios negreiros, interceptou o veleiro português Maria da Glória na entrada do porto do Rio. Sua carga consistia de 400 escravos, quase todos com menos de 12 anos."

24.1.07

GRAPHIC: Cadernos, diários e sketchbooks


O título deste post nos leva à edição mais recente da revista Inglesa de artes visuais, GRAPHIC (Dezembro 2006). Desde já considere-se a publicação um item básico das bibliotecas dos melhores artistas.
Além das muitas imagens, esta edição vem com ótimas coisas para ler: uma entrevista com a ilustradora Sara Fanelli (não percam dela os livros "My Diary" e também o "Pinnochio", uma obra prima da ilustração nestes recentes anos), e para os designers, a Graphic traz também Stefan Sagmeister com a crônica "My Year Without Clients" além é claro, as páginas dos diários, cadernos e sketchbooks de muitos artistas do mundo inteiro.

16.1.07

Revista Graphic


Vejam lá também 8 páginas sobre meus diários, além de uma pequena entrevista com este que vos escreve estas tortas linhas.
Estas fotos aqui no blog são do designer Pablo Dias, uma das primeiras vítimas do meu curso Diário Gráfico, e que hoje é um excelente designer e também fundador do grupo de artistas "Caderneiros". Para ver imagens da sua exposição Cadernices (que rolou na PUC-Rio), sobre os registros do processo criativo, é só dar um clique no título do post.

Revista Graphic II


Tenho colecionado as grafias erradas do meu nome. Já vi Alarcacao, Alcaro, Alarco e desta vez, colocaram um acento que dá um ar tcheco ao meu sobrenome. Gostei.
Esta página é do último sketchbook que completei antes de voltar a morar no Brasil. Lá pelos idos de 2002.
Diz o seguinte:
"Pela internet leio notícias do Rio. A cidade está refém da bandidagem. Em uma semana 50 ônibus foram incendiados. Gente comum tem perdido a vida por nenhum motivo. Faltam menos de 3 semanas para a volta e não sentimos nenhuma empolgação. Queria ao menos algumas certezas...
Ida e volta trazem consigo emoções díspares. Quando vim, o encontro com o desconhecido despertava alegres borboletas em meu estômago. Tudo apontava para o crescimento e evolução. A volta traz um outro tipo de novidade: o encontro com uma realidade que, embora conhecida, se apresenta de cara nova. Um notável agravamento do fosso social, das diferenças e da violência urbana. Tudo isso ampliado pelas novas lentes que minha percepção conquistou: o olhar de fora.
Apesar de tudo, quando elevo meus pensamentos, lembro-me das pessoas queridas que vou reencontrar, caras conhecidas e ainda não-conhecidas, e penso ainda nos que já morreram mas que, com certeza, são parte importante da minha memória afetiva.'

A foto é do Zé Pequeno, do filme "Cidade de Deus". Fui assisti-lo com uns amigos gringos, que adoraram, mas na saída me pediram desculpas por terem decidido não mais virem me visitar no Rio.

Revista Graphic III


Este caderno me propôs um desafio diferente: quebrar o bloqueio da página preta. É bem mais difícil!
Para ver imagens dos meus sketchbooks (os mesmos que saíram publicados na Graphic) , visite meu site em www.renatoalarcao.com.br

11.1.07

Brad Holland, crítico de arte, ensaísta e, quem diria, ilustrador

Há um bom tempo leio os artigos que o ilustrador Brad Holland escreve. Tenho comigo um excelente livro teórico onde ele desfila suas convicções com grande propriedade ("The education of an Illustrator", de Steve Heller e Marshall Arisman ).
Brad Holland é um sujeito esperto e cheio de ironia. Noto que muitos dos seus ataques às vacas sagradas no mundo da arte são decorrentes de algumas posições que eu até compartilho com ele. São elas:
1) Tem muuuita picaretagem por aí atendendo pelo nome de arte
2) Os ilustradores tornaram-se os principais herdeiros de séculos de conquistas, invenções e descobertas na criação pictórica

Aqui no Brasil, destaco dois cronistas com a mesma habilidade em distribuir seus petardos sobre a chamada arte contemporânea: Affonso Romano de Sant'Anna (imperdível o seu livro "Desconstruir Duchamp") e Arnaldo Jabor, cineasta-colunista que suscita ondas de amor, ódio e pruridos em seus leitores.
Em duas ocasiões notei que o Jabor citou em suas crônicas o nome de Brad Holland como "crítico e ensaísta", notadamente desconhecendo ser ele um ILUSTRADOR.
No artigo "A Arte deve ser a exaltação da vida (Afinal, o que é a arte no mundo de hoje?), disse o Jabor:
"Acontece que críticos e ensaístas sacanas mas brilhantes como Brad Holland, por exemplo, vêem esta brecha teórica no ar e comecam a destratar a arte em geral, com claros tons reacionários e, no caso de Holland, muito engraçados. Ele refere-se ao beco sem saída da arte, que descrevo neste artigo-cabeça. Diz ele: "Tanto o dadaísmo como o surrealismo estão superados. É impossível distinguir esses movimentos estéticos da vida cotidiana". E depois: "Não há mais o que transgredir. Tudo foi assimilado.'Estamos rompendo com as normas' é, hoje, o slogan do McDonald's. E a piada final, o punch line:"Antigamente o artista de vanguarda chocava a classe média. Hoje a classe média choca o artista de vanguarda".

Sim meus amigos, os ilustradores pensam - nem todos, mas os poucos que sabem pensar o fazem pelos que não pensam (que merda de frase, mas era isso mesmo que eu queria dizer)

Vai lá ver o trabalho do cara: http://www.bradholland.net/beta/portfolios/portfolioAdv.html
Para ler os artigos (english of course), vá em http://www.illustratorspartnership.org/01_topics/index.php (digite o nome do sujeito no campo "search articles by author")

Frases de efeito


Brad Holland sabe desenhar e escrever bem. Os desenhos vocês já conhecem. Agora vejam as frases:

"Expresse-se! É mais tarde do que você pensa."

"Todo mundo é um artista hoje em dia. Astros do Rock'n roll são artistas. Da mesma forma diretores de cinema, performáticos, maquiadores, tatuadores, e cantores de rap. Estrelas do cinema são artistas. Madonna é uma artista porque explora sua própria sexualidade. Snoop Doggy Dogg é um artista porque explora a sexualidade alheia. Vítimas que expressam sua dor são artistas. E também os caras na prisão que se expressam em papelões de camisetas. Até mesmo consumidores são artistas quando expressam seu gosto na escolha de produtos. As únicas pessoas que sobram na América que parecem não ser artistas são os ilustradores."

"O Milagre da Autenticidade: a fé de que, se formos todos autênticos e nos expressarmos, a sociedade irá se beneficiar. Este é um ideal encantador, mas que subestima o óbvio. Há um monte de autênticos imbecis e idiotas no mundo. Encorajá-los a se auto-expressarem nunca fará bem algum a ninguém, muito menos à sociedade"

"Sobre o Expressionismo Abstrato: Após a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos emergiram como a superpotência mundial. Empresas americanas como a Esso, por exemplo, que até então haviam funcionado apenas como negócios regionais, tornaram-se corporações internacionais. Passaram a adotar então nomes abstratos como Exxon, ou Citgo, que dariam à elas um status "world-class". O fato de gigantes multinacionais não poderem ter dependuradas nos lobbies dos seus prédios da Bauhaus pinturas de palhaços chorando ou de celeiros vermelhos, fez com que o Expressionismo Abstrato surgisse como a mais superfaturada forma de decoração de interiores"

Estilo não tem dono (ou "a drunkard's ass is nobody's property")


Brad Holland foi um dos primeiros a encarar abertamente o gigante Golias que são os conglomerados de licenciamento de imagens, ou Stock Agencies (por aqui chamados Bancos de Imagens). Há um bom tempo atrás algumas Stocks cutucaram seu calcanhar de Aquiles ao contratar jovens artistas para simplesmente clonarem seu estilo. E não teve jeito: estilo não é algo que possa ser registrado como propriedade intelectual, e os vários Holland-clones fizeram a festa dos bancos de imagens. Brad Holland teve então que deixar de lado suas acrílicas texturizadas e partiu para uns pastéis com um quê de primitivismo. Até que voltem a copiá-lo.
Para ver o traço atual do Brad Holland, clique no título

5.1.07

Uma idade para ser feliz


Somente porque estamos no início de um novo ano, resolvi postar aqui uma mensagem para inspirar-nos com um pouco de entusiasmo pela vida. As palavras são de Mário Quintana, ilustradas aqui com a capa do recém lançado livro infantil sobre a vida do poeta. Acabou de ser editado pela Mercuryo Jovem.

"Existe somente uma idade para a gente ser feliz, somente uma época na vida de cada pessoa em que é possível sonhar e fazer planos e ter energia bastante para realizá-los a despeito de todas as dificuldades e obstáculos.
Uma só idade para a gente se encantar com a vida e viver apaixonadamente e desfrutar tudo com toda intensidade sem medo nem culpa de sentir prazer.
Fase dourada em que a gente pode criar e recriar a vida à nossa própria imagem e semelhança e vestir-se com todas as cores e experimentar todos os sabores e entregar-se a todos os amores sem preconceito nem pudor.
Tempo de entusiasmo e coragem em que todo desafio é mais um convite à luta que a gente enfrenta com toda disposição de tentar algo NOVO, de NOVO e de NOVO, e quantas vezes for preciso.
Essa idade tão fugaz na vida da gente chama-se PRESENTE e tem a duração do instante que passa."

27.11.06

Um dos mais intrigantes e importantes movimentos na arte do século 21?


Clique no título para ver este documentário sobre "uma nova forma de arte", o "Graffitti removal".
O vídeo é bem filmadinho e tal, com musiquinha hipnótico-cabeça e narradora com voz de pessoinha inteligente etc. Mas que embuste é esse de dizer que "A pintura de remoção dos graffitis se tornou um dos mais intrigantes e importantes movimentos na arte do século 21"?
Importante e intrigante para quem, cara pálida?
A mocinha que narra o filmezinho compara ainda o tal "Graffiti Removal" ao movimento abstrato expressionista (devia estar pensando em Mark Rothko), ao minimalismo, ao construtivismo russo e - pasmem - completa a sucessão de asneiras com a pérola:
"O graffiti removal é uma continuação progressiva destes movimentos e um passo importante no futuro da arte moderna..."
Ai, pelamordedeus! A arte moderna já foi há 100 anos atrás!
Esses caras não têm mais o que fazer e ficam inventando arte onde ela não existe, ou pelo menos qualquer intenção artística jamais existiu. Enviam seus filmezinhos para concursos de vídeo arte e ganham mais verbas para continuar regando suas árvores de baboseiras.
" O que torna esta arte tão intrigante é o fato de que o artista que a criou está inconsciente da sua realização artística" diz a narração.
Então tá, daqui a pouco vão dizer que o sangue na calçada onde antes havia um corpo é uma obra pictórica onde o finado também a criou sem intenção alguma, num processo inconsciente (bota inconsciente nisso), fruto do encontro casual entre forças antagônicas, um registro preciso do elemento humano em transformação do físico para o etéreo; o resíduo tátil de um instantâneo da realidade. O sangue na calçada é enfim uma obra de arte máxima, onde o artista inconscientemente deu tudo aquilo que possui de mais precioso para viabilizar sua concepção. É uma obra trágica e ao mesmo tempo repleta de uma poética urbana peculiar, que materializa-se naquela impressão a sangue coalhado de moscas na calçada.
Damien Hirst não faria melhor com seu bezerrinho fatiado no tanque de formol (que eu inclusive gosto bastante)

26.11.06

Novo filme de Jean-Pierre Jeunet


Soube que o cineasta francês de Amélie, Jean-Pierre Jeunet, está trabalhando em um novo filme baseado no livro "The Life of Pi", que deu ao seu autor, o canadense Yann Martel, o Booker Prize da Inglaterra (uma das maiores distinções da literatura mundial). Tive a oportunidade de ilustrar a crítica do New York Times na época do lançamento do livro (essa monotipia aí).
Trata-se de uma história sensacional sobre um menino indiano chamado Pi, que é sobrevivente de um naufrágio que traga toda a sua família em mudança para os EUA junto com seu zoológico particular.
Sozinho no pequeno bote, Pi tem como como companhia apenas um enorme tigre de bengala. Haviam outros sobreviventes no bote, mas estes acabaram na barriga do tigre. Então, Pi tenta manter-se vivo e de fato sai-se muito bem nesta tarefa ao longo do livro.
Na época do prêmio Booker, a imprensa especializada aqui "cantou a pedra" de que o enredo desta história de Yann Martel havia sido chupado do livro "Max e os Felinos", escrito pelo brasileiro Moacyr Scliar. De fato, logo nas primeiras páginas do "The Life of Pi" há um agradecimento especial de Martel ao próprio Scliar.
Espero que o filme seja tão maravilhoso quanto o livro (e em se tratando de Jean-Pierre Jeunet, acho que podemos todos ficar sossegados). Vou procurar o livro Max e os Felinos, pois acho o Moacyr Scliar um escritor maravilhoso.

Nefelibata



Certa vez uma amiga leu nalgum lugar que eu me apresentava como artista gráfico e "nefelibata". Então me escreveu para perguntar o que era um nefelibata. A palavra tem um som interessantíssimo, é bem verdade...
Expliquei a ela que o sufixo é o mesmo de acrobata ou "habitante das alturas". "Acro" está em acrofobia, ou medo de altura.
O Nefeli vem de nuvem. Então, nefelibata fica como "habitante das nuvens".
Na verdade quisera eu ser um nefelibata. A realidade dos prazos desesperadores dos projetos mantém-me cada vez mais aterrado.

O triunfo da Pintura


Quando eu terminar de escrever este post já estarei nos primeiros minutos do dia 26 de novembro.
O blog vai ficar um tempinho de lado pois estou no meio de um turbilhão...
Preparei recentemente um datashow para uma aula abordando um pouco da história e importância do desenho até o século XXI. Puta tema interessante, mas que infelizmente teve que ser apresentado em 50 minutos e com pouco menos de 40 imagens. O lado positivo é que isso me obrigou a escolher dentre muitos somente os que achei mais interessantes.
Dentre outras coisas falei de Lascaux, de Joseph Campbell e os mitos, de Durer e os iconoclastas na Alemanha da Reforma de Lutero, das gravuras de Rembrandt, Goya e Kathe Kollwitz, dos artistas Picasso, Matisse, Diego Rivera, e também a Secessão de Viena (da qual Klimt era membro). Mostrei croquis de Niemeyer, Lucio Costa e Le Corbusier, projetei as coisas que estão sendo feitas na arquitetura contemporânea quando se usa o computador para desenhar, falei de Raymond Loewy e seu Streamlining, mostrei desenhos do diretor Akira Kurosawa, falei de Will Eisner e Maus, da street art, grafitti e intervenções urbanas. Mostrei os cadernos do Gauguin, os croquis de Degas e as confissões visuais de Frida Kahlo. Cheguei até a nova onda de arte figurativa iniciada indagora pela galeria Saatchi de Londres. Essa é a mesma que lançou o "Sensation" (grupo que tinha Damien Hirst e seus tanques de formol com tubarões e bezerros fatiados, e também a excelente pintora Jenny Saville). Em breve falo deles aqui.
(Quando eu resolver aprender a editar a parte gráfica do blog juro que transformo em links ativos todos estes nomes que citei!)
Pois é, a mesma galeria Saatchi está lançando agora a novidade "In Triumh of painting", que é uma nova onda de arte figurativa. Os responsáveis por este revival no desenho da figura humana são os chamados "Young German Artists" (o assunto deu até capa no caderno "Mais" da Folha de São Paulo há um tempo atrás). Alguns destes artistas vieram de uma antiga escola de arte que funciona na cidade de Leipzig, antiga Alemanha comunista. Diz-se que o currículo por lá segue com uma forte carga de aulas de modelo vivo, composição, pintura, etc
Para saber o que é o "In Triumh of painting" vá em http://www.saatchi-gallery.co.uk
A imagem que acompanha este post é do Daniel Richter, que faz algo que os críticos e teóricos -sempre eles - já rotularam de neo-surrealismo.
Assim que a água baixar por aqui e eu conseguir botar a cabeça pra fora, retorno com uns rabisquets meus e de outrem.
Esse lance de escrever para meia dúzia de amigos notívagos é coisa de desocupado mesmo.
Se alguém escrever "até" me animo a passar por aqui

14.11.06

A cor


Em 1666, Isaac Newton publicou sua célebre obra "Opticks" onde descreve dentre outras coisas o procedimento que resultou na decomposição da cor branca em sete cores principais. Esta foi uma idéia que, de certa forma, resgatou uma teoria ainda mais antiga, formulada por Aristóteles. O grego defendia a tese de que o fenômeno da cor era nada mais do que um enfraquecimento da luz branca, ou, melhor dizendo, o resultado da interação da luz branca com a obscuridade. E disse ainda que, além do branco e do preto, eram sete as cores principais.
Quase duzentos anos antes de Isaac Newton, Leonardo da Vinci já havia se detido sobre o fenômeno da cor e observado que "o branco, visto ao sol e ao ar, tem sombras azuladas, pois o branco não é uma cor senão o resultado de outras cores". Antecipando-se a Isaac Newton, Da Vinci formulou sua própria teoria:
" Chamo de cores simples aquelas que não podem ser feitas pela mescla de outras cores...O branco - se bem que alguns filósofos não aceitem nem ao branco nem ao preto como cores - porque um é a causa do outro, e o outro a privação da cor...Enfim, o branco colocamos em primeiro lugar. O amarelo, o verde, o azul, o vermelho e o preto vêm em continuação..."
Desde muito tempo, foram célebres os cérebros (!) que se detiveram no estudo do fenômeno da cor, de Demócrito e Platão, Goethe, os impressionistas e também Josef Albers e os visionários da escola Bauhaus. Filósofos, místicos, físicos, astrólogos e até artistas deram seus pitacos a respeito.
A cor é um tema onde se combinam conhecimentos de física, óptica, neurologia, química, psicologia, e mesmo antropologia e história. O estudo sobre elas pode ser uma experiência apaixonante ou tediosa, a depender do livro que lhe caia nas mãos (eu por exemplo nunca consegui ler o "Da Cor à Cor Inexistente", considerado a "vaca sagrada" na literatura técnica da cor por aqui pelo Brasil).
De todas as formas de estudo de cor, existe uma que considero das mais apaixonantes: pegue um bom livro com obras de Marc Chagall, Van Gogh, Hokusai, Odilon Redon, Basquiat, Rauschenberg, Mark Rothko, Wayne Thiebald, Richard Diebenkorn, enfim, escolha o seu...Busque identificação com os seus coloristas; assim como nos deixamos influenciar pela forma, deixemo-nos influenciar e embriagar pela paleta dos mestres. E que se fodam as teorias sobre comprimentos de onda e estímulo de cones e bastonetes!

Regras e leis sobre o certo e o errado em arte

Vejam que interessante este raciocínio:
"É fascinante observar um artista esforçando-se por realizar o equilíbrio certo, mas se fôssemos perguntar por que fez isso ou aquilo, talvez ele não fosse capaz de nos explicar. O artista não obedece a qualquer regra fixa. Ele simplesmente pressente o caminho que deve seguir.
É verdade que alguns artistas ou críticos em certos períodos tentaram formular leis de sua arte, mas verificou-se sempre que artistas medíocres não conseguiam coisa alguma quando tentavam aplicar estas leis, ao passo que os grandes mestres podiam transgredi-las e, apesar disto, realizar uma nova espécie de harmonia que ninguém pensara antes."
Um outro sujeito, chamado Franz Weissman, disse algo no mesmo viés, só que em outras palavras:
"Sigo minha intuição e corrijo as imperfeições. Primeiro nasce a obra; a teoria vem depois."

Perceberam? Sem talento não há livro que dê jeito. Tem que botar a mão na massa.

A Perfeição artística

Disse Baudelaire:
"Uma boa pintura , fiel e igual ao sonho que a fez nascer, deve ser criada como um mundo. Do mesmo modo que a criação que vemos é resultado de várias criações, das quais as primeiras se tornaram sempre mais completas pelas seguintes, assim também uma pintura, se trabalhada harmoniosamente, consiste de uma série de imagens sobrepostas, onde cada nova camada dá realidade ao sonho e faz com que ele escale um outro degrau no sentido da perfeição."

Alguém me diga por favor quantas pinturas esse senhor Baudelaire fez? O que ele descreve é uma completa romantização do processo criativo. Dê-se um pincel a este senhor e ele só saberia usá-lo pra escrever.

Análise artística freudiana



" I want to do something good, if that's what perfection means"
Disse Lucien Freud, plantando bananeira no sofá ao lado de sua filha (lá pelos idos de 1995)

A forma do Homem


"Dentre todas as formas que desde o início da civilização mais interessaram ao homem, a forma humana é a que se destaca. O que nós procuramos e valorizamos em um trabalho de arte é a sua relação com a vida, a sua relevância emocional e intelectual para com a experiência humana"
Disse o escultor suíco Giacometti